terça-feira, 25 de novembro de 2014

Minha paixão por João se fez notável

Eu sinto essa paixão
nas roupas inquietas no varal
No leite que decora a xícara
E nos meus lençóis 
que não conhecem o teu cheiro
Eu sinto essa paixão 
em tudo que não criei
Porque não tenho divindade 
para bonitezas
Sinto tal paixão
ao me deparar admirando 
biscoitos quebrados,
sapatos embarrados 
e imaginando teu rosto que não conheço
Mas desatina e dói 
Ah, como dói
A paixão está nas avenidas largas,
atravessa comigo as faixas de pedestres
mais desbotadas
Eu a sinto, 
quando a tristeza me joga na cama
e me põe em posição fetal, 
abraçando pernas e joelhos cansados
A mesma paixão que cansa
e limpa telhados 
com as lágrimas de Deus
A paixão que faz 
os pássaros cantarem desafinados
somente para agradecer 
o simples bater de suas asas
Paixão que esbofeteia o meu rosto
Igualzinho ao conto de Caio F.
Aquele que o rosto atrás do rosto 
continuava belo, mesmo destruído
Eu sinto essa paixão
fervendo o meu sangue
enchendo-me de poesia e ódio
A mesma se atenua 
quando escuto Chico Buarque
e quando alguém me julga poeta
Só poetizo por você, homem
Homem inefável
desgraçado
e jeitoso
Tens um jeito 
de me fazer perder a classe
só por dizer-lhe 
o que bate escondido no meu peito.

sábado, 22 de novembro de 2014

Mais uma página da melhor degradação

A vida corre em quilômetros
Eu parei em frente ao espelho
para me ver chorar
Do que adiantaria 
pegar o meu batom mais bonito
e escrever no mesmo espelho
que sinto a sua falta
Se nem um poema lhe comove,
imagine uma frase
Imagine eu, 
em pleno estado de decomposição
Virando pó
Porque minha vida você virou para baixo
como quem termina a última dose de whisky, 
vira o copo e vai simbora

O drama sempre fica
O drama eu posso dizer que é só meu.






sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Sofrência secular

Ninguém sabia, até agora,
mas eu sinto 
insetos caminhando sob meu corpo
Me examino e nada acho
Acho mesmo que a Paranoia 
se encantou por mim
Eu quis pedir ajuda a ele
Mas me armei com a ilusão mais sensata
Pedi mesmo foi uma bebida forte
e o destilei na minha euforia
Ajeitei-me na cadeira de ferro
Na mesa daquele bar limpo demais,
para a sujeira da minha platonice urbana
Só havia guardanapos de papéis coloridos
Daqueles que as cores desbotam nas mãos
quando a cerveja começa a suar
Entrei em letargia, 
queria tanto um guardanapo 
branco
discreto
sem a pretensão de quebrar a frieza
daquela epifania
Porém, o súbito entendimento das coisas
ia bem mais além da disposição 
das cores de um guardanapo
Minha compreensão abrangeu
a cena:
eu
sozinha
no bar
pensando
nele
que hoje tem fotografias com cães 
das garotas com quem divide seu tempo
Eu não tenho tempo
Também não tenho um cão
Ainda preciso de ajuda
Minha gata se chama Juliete,
mas ele não perguntou 
de onde tirei esse nome
Agora, me pergunto
Por que quero este homem?

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Amor à la Dahmer

Me espera! Por favor, me espera...
Deixa eu bater na sua porta até você sentir medo de mim, mais uma vez. 
Eu quero lhe cravar a faca no peito pra lhe mostrar a dimensão dessa minha doença.
Depois degustar seus músculos e marinar seu coração com temperos cheirosos.
Me aceita com toda esta lama que despenca das botas que não combinam comigo.
Me aceita, que eu lambo o tapete preferido da sua mãe, que acabei de sujar com meu apelo de amor miserável. 
Fica comigo, eu largo o álcool e faço dos líquidos que te escapam da pele, os meus preferidos.
Chame de amor, essa doença que até mais cedo ninguém ousou dar o diagnóstico por medo de ser contagiosa. 
Cuspa na minha cara, jogue-me no chão com toda a poesia que você só julgou bonita.
O bonito lhe ofende, então eu passei a escrever o pior que fez-me sentir em prol da indiferença que lhe protege. 
Me proteja, das pessoas imbecis que não acreditaram em nós. 
Me envolva nessa sua bolha de homem mau, que corrompe tudo em sua volta.
Volta a desejar-me, com toda a minha loucura que atravessa fronteiras e vai além das guerrilhas mexicanas.
Meu drama mexicano é todo seu, você sabe. Quero sentir uma felicidade inesgotável que faça doer o peito, como o meu peito dói agora por não sentir felicidade alguma.
Ah, João... Você é tão bonito, que me dá vontade de arrancar a sua cabeça e lhe montar um altar para não sair da minha vista.
Comer os seus pedaços, em busca de qualquer salvação. Mentira, não quero ser salva.
Me roube a ideia do suicídio diário e me mate você mesmo. Definhando-me, negando migalhas da sua presença. Não ria, João... Você é o meu mais leve absurdo. Eu posso tirar a roupa para lhe impressionar, eu posso comprar uma arma também.
Me espera, antes que eu decida que azul marinho é a cor mais bonita para o seu caixão. 
Vou pegar o ônibus na próxima hora, meu bem... Não fuja, mais não. 
Pois para casar o seu demônio com o meu, eu irei até o inferno. 

terça-feira, 4 de novembro de 2014

O nome dele é João

Ele é a folha em branco 
desejando minhas palavras 
quilométricas
É a força da natureza
que me encanta com a garoa
mas me ganha com a ventania
Ele é aquele homem arredio
torcendo para eu lhe amarrar
com cordas trançadas
É para mim a Marília de Dirceu
e Dorian Gray de Wilde
Ele é o que ninguém acredita
Sem data no calendário,
sem fim previsto
E tudo o que eu não sei
sobre ele, eu sento e aguardo 
os dias me mostrarem
No embalo da paixão mais comedida,
vivendo sob a sombra do gostar mais trágico
Descansamos então na rotina cíclica e perene
desses poemas que perpetuo na vontade
de contornar os traços de suas voluptuosas mãos
Como se não fosse eu arquiteta ou artesã
dessa grandiosa obsessão.

domingo, 2 de novembro de 2014

Cerveja em copo de plástico

Hoje é um daqueles dias 
que não consigo nem me olhar no espelho, 
por repulsa das coisas que cometi 
na ânsia de querer mudar alguma coisa irredutível. 

A minha condição de permanecer um espírito fracassado 
está ligada ao meu gosto 
de querer sempre ser um alguém individual. 

Marcas do meu batom 
na camiseta do homem recém feito e desconhecido, 
decepção noturna, beijos vagos e olhares pudicos. 

Minha cerveja em copo de plástico 
equilibrou toda a decadência da noite. 
Meu batom derreteu com o calor
desse meu inferno particular.