quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Somos o que não era pra ser e o que mais do que nunca deveria ter sido

   Ele é a paixão que não vou ter tempo de escrever mais. Ontem ele disse que está indo embora, pela primeira vez chorei na frente de alguém. Foi aquele choro silencioso, mesclado com soluços de pesar, pelo que não tive tempo de viver. É a paixão que me oferece água, fogo e todos os outros elementos existentes. O que não existe, ele também ofereceu-me. Porém, a paz de espírito ele só emprestou. Ele é dessas paixões que você acha que só acontece com os outros ao seu redor. Ele tem o cheirinho da vida que eu sempre quis, cheiro de encrenca emocional, cheiro de reciprocidade também. Ele foi a única paixão que me deu paixão de volta. Eu sonho com ele, estando dormindo ao lado dele. Eu exploro seu corpo como quem passeia pelas curvas de vielas milenares e nunca se desencanta. E tudo é tão fugaz. Ele me beija, eu o beijo. Ele delicadamente me crava os dentes, eu furiosamente escrevo um H nas suas costas com as pontas das unhas... Ele deita sob mim e meu corpo é brasa. Ardo em resposta.Tudo é tão árduo. Não tem elemento algum que nos defina. 
   Somos tudo, não sendo nada. Somos todos os personagens mais desgraçados da História. Bentinho e Capitu. Marília e Dirceu. Heathcliff e Catherine. Somos esse prazo de validade, somos o que não deveria acontecer. O erro de percurso, o livre arbítrio que deu errado. Somos os insetos loucos que sobrevoam esta valeta. Somos as borboletas diabólicas vivendo dentro desse estômago comedido. 
   Somos esse almoço salgado por lágrimas, cujo não consigo digerir agora, às duas da tarde. Somos as três horas do pior sono que tive na última noite. Somos só dois adolescentes querendo ser adultos. Somos seus olhos em mim enquanto fecho meus olhos e sei que estás me olhando. Somos os apaixonados mais bregas dessa cidade. Somos os abraços ternos de todas as esquinas, e a sombra de todas as mãos entrelaçadas dos casais que não tiveram tempo de ser.
Seremos até fevereiro, o que eu queria ser até meu último suspiro.

5 comentários:

  1. Acho que é a primeira vez que paro para ler algo teu em prosa e ah, me doeu tanto. Emocionei-me como se fosse eu quem tivesse escrito. Sinto muito disso aqui.
    Você escreve muito bem. É profundo, doído, mas ao mesmo tempo afável, gostoso de ler. Não sei como te defino, só sei que gosto.

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    1. Obs.: teu texto me lembrou da música "Somos quem podemos ser" do Engenheiros do Hawaii.

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  2. Vocês são um conto sem ponto
    Não esquece de nunca esquecer

    ah, sobre o texto e teus poemas, sempre foram e são: inteligentes, apaixonados e Hellen demais.
    Saudações.

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  3. Triste, mas possuí a beleza mais natural. Como alguém que deixa-se doer só pra saber como é, e até gosta. Gosta e escreve.

    Tua poesia sempre arrebata e bate.

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  4. Que seja eterno enquanto dure Hellen... Intenso, sincero, verdadeiro, um perfeito retrato de uma paixão efêmera e marcante.
    Beijos

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