quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Por não ser real, eu me perdi na calma do não.

Um ano
50 poemas
Um codinome
Um nome com sete letras
Os olhos
Com o tom de verde mais bonito que já vi
A pessoa que mais me entristeceu
Pérfido inescrupuloso sujo
Um homem comum
Um personagem endeusado
Meu coração cortado à lâmina
O ego dele festeja
enquanto minha dignidade rasteja
Se dor rima com calor
Você poderia me abraçar de novo
Porque vai arder
quando no mesmo segundo
eu lembrar
que você não é meu
Também não sou minha
Sou de Dionísio, mais do que fui sua
Quem é Dionísio? Quem sou eu?

Queima...



(Será que você pode escutar Creep do Radiohead por mim, pela última vez?)




domingo, 21 de agosto de 2016

Meu amado não me amou

                                                                      Não encontrarás um cravo ou 
                                                                      uma rosa, uma flor na minha literatura.
                                                                      Mas encontrarás um punhal ou um fuzil.
                                                                                           Jorge Amado



Todos eles falavam dos meus olhos - tristes
Mas você não teve olhos
Para ver os meus olhos
E eu não conseguia enxergar isso
O deslumbramento me anuvia sempre
Depois do que se sucedeu,
o vermelho daquela esquina
me faz ter vontade de gritar coisas horríveis
Paletas de cores 
de qualquer loja de tintas
Me farão sentir raiva e repulsa
Te vi com olhos de poesia
Porque adensei sua feiura
Me perdi no seu corpo gelado
Por querer escrever versos drummondianos
em sua pele com minha boca quente
Eu congelei
Meu Deus, eu congelei.

11/08

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Nove décimos de mim já morreram, mas eu guardo o décimo restante como uma arma.

   Ninguém se procura, ninguém se cuida. E tristemente, ninguém se entende. Palavras proferidas, silêncios devolvidos. Os danos são atemporais porque as histórias se repetem, se você me magoou foi porque eu deixei, se eu deixei foi porque acreditei que também pudesse me fazer bem. Se eu lhe magoei, peço desculpa. Todas as sensações se embaralham e me exaurem, eu penso tanto no definitivo e na fugacidade. Um homem terno e dolorido, escreveu por mim que, se você pisca quando torna a abrir os olhos, o lindo fica feio. Por isso que a utopia é urgente, quando deito a cabeça no travesseiro e não consigo dormir, é quando sonho com pessoas gentis e uma vida menos ensaiada. 
   Eu preciso dissipar - por meros minutos - a certeza de que ninguém se procura por carinho. E é mais cômodo dizer um "cuide-se" do que cuidar de alguém, porque no fundo não cuidamos  nem de nós mesmos. Estudos nos aconselham a beber mais água, a praticar exercícios e dormir bem. Mas para as pessoas que sentem, dormir bem é piada. E esse excesso de sensibilidade também é um deboche divino. Se escrevo é porque não entendo, mas gostaria. Se escrevo é porque preciso ler  isso tudo mais tarde, e crer que essa exatidão pode muito mais do que agredir. 
    Você certamente já teve momentos como esse, de prestar a atenção nos ruídos do dia acordando, o barulho dos carros, o som dos passos atrasados dos transeuntes. Aliás, gosto muito dessa palavra  "transeunte", pela representação do que nunca cessa, do que nunca para.  Você olhou para o alto? Os pássaros decorando o céu, enquanto eu sinto inveja de ser só isso. Sente as árvores derrubando folhas sobre nossas cabeças cansadas? E essas buzinas e sirenes e cães latindo. Infernal, não é?! Ou é a vida acontecendo em volta enquanto perdemos mais um dia ou ganhamos o mesmo. Eu não me acostumo. Está escutando os carros de propaganda? O arroz mais caro, a festa chata que vai ter no final de semana, mas que iremos para fingir que somos sociáveis e felizes. A música do taxista, enquanto ele limpa seu veículo estacionado, tão piegas quanto os meus pensamentos diários. E aquela mulher que acabou de jogar o papel da bala na calçada? Nojenta. Eu vi. 
   Mas o que somos quando ninguém nos vê? Somos iguais a ela. Somos nojentos só por estarmos respirando. É tudo trágico, meu bem. Mesmo estando na merda, sendo uma merda e vivendo entre uns merdas... Eu preciso sonhar quando coloco minha cabeça no travesseiro.

09/08

Título: Charles Bukowski

domingo, 14 de agosto de 2016

Sutil afago em meus sentidos

Eu perdi as estribeiras, querido
Posso lhe chamar de querido?
Mesmo que soe tão falso 
como sua bondade

Eu pensei em jogar bilhetes 

no seu quintal 
Eu quis pichar a calçada do seu trabalho 
Senti vontade de colar panfletos 
do que te escrevi 
nos postes todos da rua dos Andradas

Mas pessoas como você

não merecem nem a água que bebem
É como se apenas sobrevivessem 
de egocentrismo

Após entender isso, 

escutei músicas horríveis 
só para conseguir chorar de verdade

Eu conheci homens adoráveis, e vis também

Por muito tempo eu me esquivei 
de toques 
de olhares
minuciosos

Depois descobri a delícia

de abraçar quem quer me abraçar
de despir quem quer se desproteger
somente para mim

Mas ainda penso em você

quando lembro de sentimentos arredios
e toques aveludados

Você conseguia elaborar uma réplica de paixão 

embasada num olhar abrasivo
Você me tocou e eu me senti viva.

02/08

Título: Manuel Bandeira

domingo, 7 de agosto de 2016

Au revoir, grande homem pequeno.

Eu vivia na espera dos gestos noturnos
Era só ele encaminhar aquele olhar insano sobre mim
Que eu duvidava da existência dos Deuses
Era só ele dar a entender que me queria
Que eu pegaria meus livros todos e faria uma fogueira
Para aquecer nossos corpos extasiados
De tanta luxúria e desejo
Agora, olhando para o passado-recente
Percebo que eu não mensurava os danos dessa doença
A cura não é absoluta, o vício pode retornar
Quando ele passar por mim na rua
entretido com a paisagem urbana
Me inspirando sem querer mais uma utopia boba
Eu tenho uma fraqueza por belos receptáculos
Os que me fazem crer em divindades
somente por poder admirar perfeitas anatomias
Talvez seja futilidade minha
apreciar mãos bonitas, corpos grandes e robustos
decorados com olhos de atacamita
Mas é por eles que escrevo
e me dispo até a alma
É por eles que me distraio 
só para me destruir.

Meu bem, eu gostei tanto de você até cair
Agora me deu vontade de levantar e gostar de outra pessoa.


20/07/2016

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Só te conheci no bar

   Penso que comecei a escrever sobre você por causa da sensação de impossibilidade que acometia tudo. No decorrer dos meses, quando fui lhe observando melhor, pude ver que você é a pessoa mais acessível do mundo. Então transmutei a errônea sensação, e assassinei um pouco desse encanto. Eu sempre quis algo limpo, quiçá, imaculado. Algo que não tivesse a intenção de quebrar os meus invólucros, nem a minha sensatez.
   Por mais que o sujo me fascine, ele me induz a desejar barbáries, eu morro por dentro quando te penso com outras pessoas... Essa perdição é uma via dupla, quando quero tanto que você me encontre e me enxergue, esbarro no medo de você me ver por aí e eu não estar com o cabelo ajeitado. Sinto taquicardia toda vez que passo perto da rua do seu trabalho, logo depois, sinto remorso por não ter optado por um trajeto mais distante.
   São pequenos acontecimentos banais que fazem eu voltar para casa querendo me apaixonar por alguém que possa também me achar interessante quando estiver sóbrio. Mas isso também é banalidade, eu não escolheria me apaixonar por qualquer pessoa que fosse. A paixão é bonitinha só na primeira semana, o resto do tempo é um constante desespero. Poderia dizer que eu não a desejo a ninguém, mas ela abrange todos. Que crueldade!
  
   Depositei em você a minha vontade de ter alguém mais próximo do personagem que eu não saberei jamais inventar. 

Esse personagem foi você 
na maior parte das vezes 
em que me olhou sem me notar
em que me olhou para me adivinhar 
em que me olhou sem querer me ganhar
em que me olhou para me magoar

Mas você quis ser o que escrevi
para sentir-se mais mundano
Todas que lhe quiseram, conseguiram 
Eu também consegui
Então não há motivos para me entristecer. 

07/07