domingo, 25 de setembro de 2016

Amanhã recomeço e envelheço

        Amanheceu
Eu passei batom e sai
Querendo que todos me vissem
Vissem o quão feliz eu sou
Mesmo que apenas eu saiba 
que sou uma esfarrapada mentira
Sempre chego atrasada
Não sei atravessar a rua
e derramo café na roupa
Coloco os fones de ouvido 
e finjo que não dói quando me ferem
        Entardeceu
Deito no sofá, fecho os olhos
queria desintegrar, não existir
Leio poesia, finjo que escrevo poesia
Penso nos dias ceifando sonhos
Planos aperfeiçoando meu desespero
Escuto músicas doloridas 
e vejo o sol dizendo adeus
Enquanto lembro que certas pessoas 
nunca disseram nada
         Anoiteceu
Puxo uma cadeira e me escoro na mesa
Olho para o nada
O pão não alimenta, nem o arroz
Me retiro e recito mantras
Amanhã ficará tudo bem...
Esqueço o batom e deito para dormir
Quem sabe eu sonhe e seja feliz mais vezes
E seja menos desastrada e não suje a roupa
E acorde mais cuidadosa e saiba olhar para a sinaleira
E que eu chore quando me ferirem
Porque sou humana
e a vida é besta
Deus e Drummond 
souberam disso antes de mim.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Sobre o G

    Eu não queria escrever sobre ele por causa do estereótipo de escrever sobre alguém e criar irrealidades acerca do que me é permitido ver. Mas como creio já ter finalizado nossos remotos encontros sórdidos, agora me sinto livre para discorrer sobre as feições joviais e pele alva e cheiro de vontade à flor da pele desse menino que me emaranhou em edredom e excitação. 
   Seu gosto na minha boca, suas mãos na minha cintura, ele em mim... Isso poderia se tornar um conto erótico se eu fosse menos contida. Seus vinte anos reacenderam minha fome de perdição de selvageria de lascívia. Ele é conhecido por suas tesouras e navalhas, ele é artista também. Eu corro com tesouras imaginárias e sou cortada de tudo que possa se tornar bonito ou edificante, me acostumei com isso. Sempre nos acostumamos ao que não devíamos. 
   Eu não deveria ter achado aquela cicatriz no abdômen dele, a coisa mais pura que vi nos últimos tempos. Não sei da sua história, mas me comoveu só de olhar. Sem a audácia, sem o corpo em chamas, ele só um menino. Ele é um homem que não deveria envelhecer nunca. Talvez não nos toquemos mais, porque hoje eu escrevi isso, mas foi natural. Como uma boa atração epidérmica.

06/09/2016

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Para o homem das mãos firmes e palavras voláteis

Ele foi embora
Numa linda tarde de quarta-feira
Levou suas coisas, sua gata
E seu diploma
Sem a mais ínfima vontade, 
levou uma parte de mim também
Ele me magoou, 
eu o desmascarei
Ambos sentimos raiva
Também fui capaz de sentir paixão
Meu homem de dois andares 
e olhos verdes
Verdes famintos
Pode ser que daqui há 10 anos 
eu esqueça seu nome
Mas hoje eu deixaria 
ele me fazer um filho 
Hoje eu digo que deitaria ao lado dele 
todas as noites
do resto da minha vida
Mas nunca mais nos veremos
Seu sotaque vai me atormentar
Quando eu escutar outra pessoa 
falando "porta" daquele jeito 
Ninguém mais me tocará 
como ele
Ninguém mais me machucará 
assim
Escondendo verdades,
me queimando no colchão
Fizemos amor como quem sabe 
que o amanhã pode não chegar
O nosso não chegou
Ele deve estar percorrendo 
alguma estrada agora
Como percorreu vários corpos 
nessa cidade
Com zelo e fugacidade
Sempre com o intuito de dizer adeus

Sentirei falta dos olhos
e do sexo 
Da mágoa não 
Mágoa que não nos deixou
criar uma despedida
Nós dois queríamos ter a razão
E não conseguimos ter um ao outro.

13/07