sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Ruge pra mim, feito felino. Me fere com a verdade de querer-me na medida do possível.

Eu escorreguei na nudez dele
E meus pés descalços temeram esmagar qualquer chance
De libertação
Que o tatear captasse 
dentro daquele quarto escuro
Dizíamos coisas disformes
Porque não nos importávamos com mais nada
Gonzaguinha poderia rasgar sua voz no rádio
Que continuaríamos inteiros
Dissimulando disfarçando escondendo
Sem revelar jamais
Que poderíamos sim
Caber numa conta de mais
Descendo ladeiras
Vislumbrando um céu de chumbo
Escrevendo sobre a solidão embaixo do viaduto
Em qualquer circunstância
Eu não sei me fazer interessante
para quem me interessa
Quem me despe não me olha
Quem me olha não quer me tocar
Queria que ele soubesse ficar
E fizesse uma planta brotar na minha face
Tão selvagem e impalpável
Áspera e cortante
Só para retratar o contrário 
do que sou por dentro
Por dentro eu sou azul
Ele saberia disso se ficasse.


























Arte: Agnes Cecile

sábado, 14 de janeiro de 2017

Precipita tua fome e reconheça-me como Senhora D. Derrelição. Obscena.

Lembro
Enquanto assisto televisão
Saio para passear
Ou me vejo à toa

Lembro
Do cheiro
Da boca
Das mãos

Do teu peso sobre mim
E da leveza que de mim sai
E paira sobre o ar

Tu pareces
não valer muita coisa
Talvez caiba
no meu orçamento

Diz não ser o homem
que eu penso
Mas eu penso em tantas coisas

Meu interesse se alastra
A repulsa
por essa causalidade também
Meu corpo te quer
Porém, eu cansei de ser
teu subterfúgio

As artimanhas
para me emaranhar nesse desejo
São tão vis quanto deleitosas

Tu sabes como eu gosto
Eu sou mera aprendiz

Me deixa queimar
dentro dessa fixação inflamável
E lembre do meu nome
em meio às chamas

Me chama.


Título: Referência a Hilda Hilst