A absorção é lenta tal como uma injeção subcutânea Eu saboto a cura pra viver nesses espasmos de de dor ocasional Nina Simone faz o ambiente E a gente dança Mas se cansa também Encontrei alguém Que me inspira revolução Além do fado e da urbanidade Ele pode ser minha ilusão arcaica Pode ser tudo, inclusive outro nada Me questiona coisas triviais E eu suspiro pela pressa desse mais novo encanto Analisando que podem me ganhar quando quiser usufruindo de boas trivialidades
Tu fumando encostado na parede Teus olhos em mim substituindo gargalhadas profanas Eu sentada na calçada suja Tão sem medida Densa e clandestina Talvez eu seja tu mesmo Tua soberba e afronta E o retrato De muitas inalcançáveis Coisas mortas Nós enternecidos Nesse susto E Hilst ressuscitando pra perguntar o que fiz com o poema dela
''Mal sabe do que eu sou feito'' proferiu ele. Mas ela não lhe contou, o mundo que inventa ser real pra não perceber a verdade. Logo acha que não existe. Sua loucura gravada em vísceras expostas... Poesia in[contida nas entranhas desconhecidas, dos personagens fatídicos escritos pela mulher mais estranha. Endeusa o globo terrestre Engloba o que não conhece Ela não inspira só pira
Diz que chove aí Quarta-feira, 3 da manhã Enquanto aqui penso em escrever Sobre outros homens com o mesmo nome Meus quereres são interessantes anomalias E a sabedoria me prostra Achei que perdi porque achava que tinha Será a poesia um prêmio de consolação? Quando quiser me d[escreva seu dia e aquele et cetera todo Depois lembra do bilhete que te dei, advertindo: ''Não tenho mais tempo para ficar planejando desfechos para um único personagem Há tantas pessoas lá fora que renderiam bons sonetos Mas você, você inspira um livro todo E eu passo a ter medo de mim'' Hoje ainda tenho medo de mim e ninguém me inspira mais nada
Sabe, pés rodopiando, mãos querendo alcançar esse céu de celofane. Os travestis famintos dessa cidade, as drogas que não aparecem na televisão. As tragédias moldando bons culpados, as doenças redimindo pecados. Aqueles degraus, as ruas largas. A contemplação do tempo, ultimas horas. Eu sabia, mas não queria ter certeza. A raiva e eu, o sufoco e eu, o fado e eu. Você tinha que ver. Ver que tudo isso sou eu, abrigo ou céu aberto. Como você quisesse. Agora queria tanto que Caio estivesse aqui, para dançarmos sobre os canteiros, possuídos por alguma alegria maldita e ver o mundo florescer no nosso quintal. Sem entender porque os dias se desenrolam assim, existindo distância entre quem se quer bem. Será que você me entende?
Então me afaga com mãos de papel como se fosse impossível me escrever sem me tocar Com toda impessoalidade existente, aliamos nossos demônios em busca de qualquer perdição a dois De uma complexidade muito poética De uma dramaticidade que não me lembra drama algum
Observando que gostar de você é como encomendar minha própria lápide Trágico, se eu não admirasse a morte Sempre quis que meus meios adiassem meus fins
Mais do que eu poderia supor,
é essa compulsão pela escuridão alheia]
II
Meu corpo caindo, se resumindo a ossos amontoados, caricaturas mitológicas e animais de esgoto Por intermédio de Hilst, pergunto-lhe: Sabes ainda meu nome? Fome. De mim na tua vida.