sábado, 15 de fevereiro de 2014

Fervendo nessa chaleira

A absorção é lenta
tal como uma injeção subcutânea
Eu saboto a cura
pra viver nesses espasmos de 
de dor ocasional
Nina Simone faz o ambiente
E a gente dança
Mas se cansa também
Encontrei alguém
Que me inspira revolução
Além do fado e da urbanidade
Ele pode ser minha ilusão arcaica
Pode ser tudo, inclusive outro nada
Me questiona coisas triviais
E eu suspiro pela pressa 
desse mais novo encanto
Analisando que
podem me ganhar quando quiser
usufruindo de boas trivialidades

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Hilst que me perdoe

Tu fumando
encostado na parede
Teus olhos em mim 
substituindo 
gargalhadas profanas
Eu sentada na calçada suja
Tão sem medida
Densa e clandestina
Talvez eu seja tu mesmo
Tua soberba e afronta
E o retrato
De muitas inalcançáveis 
Coisas mortas
Nós enternecidos
Nesse susto

E Hilst ressuscitando 
pra perguntar 
o que fiz com o poema dela

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

A permanência só dura o dia

''Mal sabe do que eu sou feito''
proferiu ele. 

Mas ela não lhe contou,
o mundo que inventa ser real
pra não perceber a verdade.
Logo acha que não existe.
Sua loucura gravada 
em vísceras expostas...
Poesia in[contida 
nas entranhas desconhecidas,
dos personagens fatídicos
escritos pela mulher mais
estranha.

Endeusa o globo terrestre
Engloba o que não conhece

Ela não inspira
            só pira

(e não amanhece)


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Muitas horas nessa calma

Que coisas bonitas você escreve...
Disse ele, 
antes de pedir que lhe escrevesse também.

Que tolice!
Escrevê-lo é só alcança-lo no papel.
Como todas as outras pessoas que escrevi, 
na minha vida elas não passaram do papel.

E ele, ele, eu quero na mesa do bar,
me olhando como uma das suas ficções de amor,
pra quem tiraria a roupa.



















(Imagens de Le fabuleux destin d'Amélie Poulain)

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Caminhando pra nunca chegar

Diz que chove aí
Quarta-feira, 3 da manhã
Enquanto aqui penso em escrever
Sobre outros homens com o mesmo nome

Meus quereres
são interessantes anomalias
E a sabedoria
me prostra   

Achei que perdi 
porque achava que tinha
Será a poesia
um prêmio de consolação?

Quando quiser 
me d[escreva seu dia
e aquele et cetera todo

Depois lembra do bilhete
que te dei, advertindo:

''Não tenho mais tempo
para ficar planejando desfechos
para um único personagem

Há tantas pessoas lá fora
que renderiam bons sonetos
Mas você,
você inspira um livro todo

E eu passo a ter medo
de mim''

Hoje ainda tenho medo de mim
e ninguém me inspira mais nada

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Banal se não fosse profético

   Sabe, pés rodopiando, mãos querendo alcançar esse céu de celofane. Os travestis famintos dessa cidade, as drogas que não aparecem na televisão. As tragédias moldando bons culpados, as doenças redimindo pecados. Aqueles degraus, as ruas largas. A contemplação do tempo, ultimas horas. 
   Eu sabia, mas não queria ter certeza. A raiva e eu, o sufoco e eu, o fado e eu. Você tinha que ver. Ver que tudo isso sou eu, abrigo ou céu aberto. Como você quisesse. Agora queria tanto que Caio estivesse aqui, para dançarmos sobre os canteiros, possuídos por alguma alegria maldita e ver o mundo florescer no nosso quintal. Sem entender porque os dias se desenrolam assim, existindo distância entre quem se quer bem. Será que você me entende?


domingo, 12 de janeiro de 2014

Dançando na sarjeta (in 2 pt)

I

Então me afaga com mãos de papel
como se fosse impossível
me escrever sem me tocar

Com toda impessoalidade existente,
aliamos nossos demônios
em busca de qualquer perdição a dois

De uma complexidade 
muito poética 
De uma dramaticidade 
que não me lembra drama algum

Observando que
gostar de você
é como encomendar
minha própria lápide

Trágico,
se eu não admirasse a morte

Sempre quis
que meus meios
adiassem meus fins

Mais do que 
eu poderia supor,
é essa compulsão pela escuridão 

alheia]

II

Meu corpo caindo,
se resumindo a ossos amontoados,
caricaturas mitológicas
e animais de esgoto

Por intermédio
de Hilst,
pergunto-lhe:
Sabes ainda meu nome? 
Fome. De mim na tua vida.