quarta-feira, 9 de julho de 2014

Há milênios te sei e nunca te conheço

   Te quis com gosto de feijão, pasta de dente e até café. Quis da forma mais errônea, até sem fé. No carnaval que não sei dançar e no tango que só admiro. Assim, assado, cozido e digerido pela minha poesia... Costurado, alinhado em mim. Quis sem querer, até me ver querendo tanto. Te quis com todos os seus amores, mesmo sem me amar. Quis pra fazê-lo mar, mesmo se eu não rio. Quis de verdade pra escrever mais uma mentira. Tu aí em Pelotas, eu aqui no Alegrete, sendo menos alegre. 
   Te quis no outro lado da linha rindo para o meu gravador só para eu sentir mais dor. Quis pra não querer mais ninguém. De modo mais vero-romântico, sobrenatural e aflitivo. Eu abri o meu cotidiano fatigado pra aceitar teu entusiasmo que revigora o meu. 
Te quis, 
logo eu 
que nunca sei 
o que quero. 

Título: Hilda Hilst

[06/06/2014]

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Sobre o impróprio

Você me arruína, homem. E eu gosto assim...
De viver com a serenidade cheirando a carniça
Me espreita todas as horas de todos meus dias
                                                        cansados]
Decompõe minha vontade de afastamento 
Cada vez que ressurge atrás do meu abismo
                                                      literário] 
Porque aprecia a maneira como escrevo
nosso desencontro
Encontrando remediação 
para o nosso falso descaso
Nosso que não é bem nosso
Eu quero viver essa relação deficiente 
ambientada no plano das ideias descabidas 
Porque é verdade, sempre foi...
Ninguém te inventa como eu
Se for para ter medo,
te dou o meu.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Feito louca, alucinada e criança

Abre a fresta da janela,
senta na beirada da cama
E aprecia as nuvens
se liquefazendo lá fora
Chove como se Deus
também estivesse triste
Penso em suicídio 
todos os sessenta segundos
de cada minuto
Como salvação
Como conquista 
da verdadeira zona de conforto
Está tudo se desfragmentando,
pedindo pra eu virar pó
Minhas tristezas são irremediáveis,
sinto que viver é apenas isso
Eu já não suporto esse isso
Transformando catástrofes em poesia,
parece que já morri faz tempo
Mas estou aqui escrevendo 
meu obituário.



terça-feira, 1 de julho de 2014

Detalhando a falta de detalhes

   Estou tão absorta com a escassez de detalhes. Vejo o cão defecando na praça e acho lindo. Aí penso que cães defecando também é um detalhe. Como aquele cara que até ontem era meu amigo e disse estar apaixonado por mim e nessa manhã atravessou a rua ao me ver porque falei pra esquecer o que me dissera. Ser rejeitado é só um detalhe. Que ele não absorveu. Nem eu. 
   Poderia preencher o calendário com todos os dias que desisti, mas as vezes que voltei atrás ocupam toda a história. Eu sempre volto atrás por uma boa paixão. E quando digo boa, acredite, é a paixão mais cruel que já senti. E isso é só mais um detalhe. Parecer uma batida de carro, que todos param e olham para contemplar o estrago, é o detalhe que adquiri de você. 
   Você foi a pessoa mais descontraída que não conheci, e todos os homens que me veem tomando sorvete sozinha pelos cantos dessa cidade, me avistam já sabendo que meu adorno mais bonito é a solidão. Por isso que escrevo suavizando todos os golpes. 
   Será que já lhe disse que o coloco nos bares e calçadas que não te conhecem? Te coloquei dentro de mim, que também não te conheço. O poder que temos de parecer pueris se alia com a vontade de decifrar o que não conhecemos.
   Alcione Araújo escreveu que, só há paixão se um não conhece o outro. Que bonita fatalidade. Mas de qualquer forma...


















(Arquivo pessoal. Livro, Cala a boca e me beija - Alcione Araújo)

sábado, 28 de junho de 2014

Algumas falhas de caráter, quem sabe?

Os mesmos rostos repugnantes,
na minha vida decadente
Quando saio da rotina
estou traindo a mim mesma
A apatia me torna superior
A reclusão nunca fora tão mais cativa
Então respondo ''foda-se'' para tudo
Num frenesi repasso mentalmente
imaginários crimes hediondos
Veja, eu poderia ser tão má
já que a escuridão me abrange melhor
Se as amarras não mais segurarem
a minha Selvageria]
Podem usar esse poema na posteridade
Se acaso eu estampar alguma manchete criminal
Sei que minha fúria me jogará do penhasco,
mas não cairei sozinha
Observo que o que me difere de um psicopata
é o sangue que ainda não tenho nas mãos
Mas enquanto isso disfarço
meu transtorno dissociativo de identidade
só matando dentro da poesia.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Morrendo no processo

É dever da cartomante mentir e cobrar por isso
A verdade pode até libertar, mas ofende
Todos os planos baseiam-se na Ilusão
Ilusão, com maiúscula mesmo pois ela é grandiosa
Eu adoro isso, as dores incorpóreas
As interessantes depressões de botequim 
Eu sendo rock desesperadamente atrás do meu roll 
Eu poderia ser a pista e você o avião
Mas creio ser a valeta e você o inseto
Quero te afundar nas minhas poças
Porque eu só sei gostar assim
Escarrando na cara da minha imaginação
Como bem sabe, Cecília Meireles
Foi lição minha chorar pouco, para sofrer mais
Sabe, pregando as angústias nas paredes
Rindo de nervosa pra despertar qualquer comoção
Almejo um romance que incomode o mundo
Que vá do pacto de sangue até a atração mais obscena
Desde sempre saíram nas cartas
Teu nariz afrontoso e corpo mitológico
Tua beleza também ofende, porque o amor não é discreto
Talvez haja entre nós mais do que a complexa desfiguração
Então quero atear fogo na sua casa se você não me amar
Pois as chamas desse meu secreto inferno 
Sobressaem todos os meus gestos.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Levando apenas esse pouco que não dura

Ontem 
você me deu 
tanto medo, 
por não me dar
um pouco de si. 
Ontem 
eu disse que 
a vida seguiria, 
seguiu sim. 
Só que eu 
parei nessa avenida, 
porque te vi 
no homem 
mais inquieto 
que passou por mim.

[5 de março de 2014]

Título: Vinicius de Moraes