domingo, 8 de março de 2015

Poema em prol de uma vulgaridade mais justa

Imoral é esse sentimento errado
que me ofende do modo mais certo
Me faz vomitar e ainda me engasga,
obrigando-me a abafar
gritos de raiva
no travesseiro
Asfixia e dói
Dói como se eu nunca
tivesse sentido esse desespero antes
Desespero com mãos no meu pescoço
Eu sou adepta à qualquer paixonite
que me faça agonizar - à toa
A minha decadência é tão vulgar
que eu preferiria ter vontade
de abrir minhas pernas para todos os homens
mais engraçados da cidade
Porque até hoje
não conheci nenhuma puta infeliz
Você deixou de ser engraçado
quando passou a rir de mim
E mesmo assim,
eu não consigo deixar você
Tudo está se diluindo
como se uma gota de sangue
caísse num balde d'água
Se dispersando
e desaparecendo
Eu desapareço dentro
dessa história
Nossa Senhora das Putas,
me escreva um roteiro,
por favor.

domingo, 1 de março de 2015

Me ame (até me danificar)

Depois que lhe conheci
passei a rir até do que
não tem graça
Criamos uma bolha
para nos proteger 
de tudo que fosse findável
No meu corpo anêmico,
eu quis prever essa alegria
Porque as linhas desse papel
nos encaminha para algum lugar
cujo as linhas do trem 
não consegue nos levar
Feito lava
eu queimei,
até você arder
Você ardeu,
até eu preferir ficar
Ficamos um no outro
como se escolhas não existissem,
acho que começamos a viver agora
Você está na minha pele
feito sarna
que eu adoro coçar
Deixa que a vida exponha
minha carne viva
enquanto eu vislumbro
a extensão desse dano.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

João é doença

   Você pode sentar nas pracinhas das fotografias e pensar nas madrugadas em que lia minhas poesias, e me dizia querer saber escrever coisas como eu. Você e toda a sua psicologia, querendo me colocar contra a parede até eu admitir ter escrito uma bela ilusão. Você sentia-se incapaz de inspirar um coração... Você pode continuar a esconder seu rosto nas mesmas fotografias, mas eu lhe vejo como ninguém. Diabólico, mas sem pretensão. Você não quer mudar o mundo, você só quer ser o João. O cara mais louco e sem rumo, que eu coloquei dentro do meu coração. Você me deu tanta segurança, se eu tivesse aceitado me daria seu corpo, papel para toda e qualquer poesia... Mais do que poesia e corpo, eu quis sua alma. Você adentrou aquele dois mil e doze, mas eu só lhe quis em dois mil e treze. Ah, seus olhos marginalizados, por você eu cometi um crime: escrever demais. Eu lhe escrevi na palma da minha mão, na parede do meu quarto e nos banheiros públicos mais fétidos da cidade... 
   Você na minha cabeça, vestindo uma camiseta branca e descansando um cigarro na boca. Você no outro lado da linha reclamando daquele frio de maio, rindo, bocejando, sendo tão menino. Você era tão meu, não sendo. Você é mau, isso sim. 
   Você pode não lembrar mais de mim, nas pracinhas ou em novas fotografias, tanto faz.... Essa paixão maldosa nunca vai ser esquecida. 



quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Cada um com o seu João

Os dias me pediram 
para escrever sobre João
[Peço licença 
para a minha nova paixão]
João não morrerá aqui
Ele não beijava meus pés,
nem pisava nos mesmos
João admirava meus calos 
e até fazia graça da aflição
Não massageava pés
e nem ego
''João'',
eu gosto tanto de escrever esse nome
Como se de cada letra, 
eu absorvesse a poesia necessária 
para perfumar as flores da cidade
João, mantém sua presença
nas nuvens mais carregadas
e na ausência mais indolor
João me esqueceu
só para eu lembrá-lo
em cada nova dor.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Poema diabético

Ao mesmo tempo
que eu queria 
que ninguém soubesse 
de nós
Eu quis também
publicar nossa paixão no jornal
Queria que se tornasse viral
esse sentimento bonito
Colar panfletos em todos os postes da cidade
com os nossos nomes dentro de um coração
Podíamos virar tema de palavra-cruzada
dentro dessa vida emaranhada
Pichar os bancos das praças e telefones públicos
Seríamos os mais bregas banais e pueris apaixonados
A vergonha e a inveja alheia
Nos definiríamos um para o outro como metade da laranja
e juntos nos conheceriam como Glicose
Também quis que ninguém nos soubesse,
pelo mistério de gostar assim
sem plateia
sem comparações com outros casais
sem frescuras matinais
Quis que ninguém soubesse
que por você eu deixei a solidão pra lá
mas até quem me vê passar
sabe que estou indo te encontrar
Agora quero que você saiba,
(com os outros sabendo ou não)
deitar na cama escutando sua respiração,
é respirar melhor.


30.01.2015

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Versos para desafogar

Isso é tanto...
Feito sopro de vida

Mas ainda insisto em me afogar
num copo d'água

Vagalume a percorrer a escuridão no campo
O pequeno ponto de luz logo se apaga

Isso pode acabar daqui a pouco
Como quando acaba o feijão no jantar

Me explica do que é feito o seu amor
Enquanto eu fecho os olhos para não chorar.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Aprendi depressa a me sujar na sua paixão limpa

Somos os pontos que nunca se ligam,
porque não queremos revelar
imagem alguma
O contorno dos nossos corpos 
enroscados na cama 
vai virar uma imagem desfigurada
Porque a ressonância dos dias que passam
desfragmenta tudo
Eu sinto fome de exatidão,
a mesma exatidão que não nos alcança
Você pode povoar meu inferno,
eu posso descansar nas suas trevas
Mas nada nos é suficiente
Também pode escarrar na minha cara
e eu lamber o seu rosto
Ainda assim seremos cúmplices 
Eu lhe odiando com força,
você rindo de mim com leveza
A impressão que revelamos - sem querer
é o desajuste 
o absurdo 
é essa paixão 
que não se contenta só com isso

Você me contenta
mas não é o suficiente.