Não quis funcionar a primeira caneta que peguei para escrever isso. Pois então, você mensura o tamanho do meu encanto e tripudia em cima dele só para me mostrar que é mais feliz sendo vazio. Mas Adélia sabe, se você dissesse vamos comigo ao inferno passear eu iria. Iria porque eu consigo matar no peito sua sordidez e ser ainda mais imunda. Me pus nas suas mãos dentro daquele papel dobrado, você me olhou de modo inominável, para meu desejo engatinhar construindo pontes para dentro do seu corpo sorrateiro.
Perceba que seu narcisismo se sobressai nestas linhas. Não foi preciso de cartomante desta vez para dizer-me que fui longe demais. Estou com aquela sensação horrorosa, aquela que me dá sempre quando sei que preciso matar um personagem torpe. Não posso lhe matar ainda, Dionísio. Você precisa permanecer em mim, não só na poesia. Eu quero lhe cortar em pedaços com a minha faca enferrujada, quero ver seu sangue sujo descendo no ralo da pia, enquanto eu tento limpar as marcas das unhas e bocas alheias que decoram a sua pele, agora minha.
Vou banha-lo na pimenta do reino até o perfume barato de todas as vadias e veados da cidade abandonarem você. Cozinharei seus músculos com orégano para saborea-los no final da noite, enquanto vislumbro seus olhos desencantados dentro do vidro mais bonito. Vou ferver seu coração com erva doce, pode ser que este chá me acalme. Seus ossos, os deixo para minha gata, Juliete dará conta.
Você é tão especial, há quem mataria por você... Mas você nunca se contenta. Quer ser o dono da loucura, da esbórnia, do pecado da carne. Quer ser o primeiro a levantar a taça e o único a dar o último gole. Quer as festas, a libertinagem, a luxúria. Quer os olhos das camponesas e dos forasteiros sobre você, porque o que te faz gozar é a soberania. No entanto, você é só um homem comum, enaltecido pela multidão. Um mero objeto de prazer ao corpo, vitrine da sociedade. Meu objeto-parco-literário.
Título: Adélia Prado
sexta-feira, 6 de novembro de 2015
domingo, 1 de novembro de 2015
Posso te olhar enquanto tu decides o que fazer comigo?
Tu apareceste no meio da madrugada, se destacando entre os bêbados e loucos da cidade. Quis recuar, quis sair correndo dali, queria que não me visses. Mas no instante em que pensei nisso, tu se recria na minha frente e me sorri sem saber o efeito que isso causa em mim e me entrega palavras difusas e me abraça e te abraço com fúria com medo com loucura. Tu me sorriu dilacerando minha sanidade. Eu lhe entreguei outra carta, acho que virei mensageira desta atração impossível.
Tu estavas debaixo das minhas unhas novamente, de forma mais fugaz que a última vez. Eu lhe acariciei selvagemente o torso. Abotoei sua camisa e este momento viu quem quis ver. Sinto ciúmes desse teu corpo, queria muito cobri-lo com o meu. Sempre o mesmo bar, sempre o mesmo olhar. Tu és diabolicamente belo, tu parado ao meu lado, me convidando a fitar cada extensão do seu rosto na claridade miserável que o ambiente nos ofertava.
Não tem um fio de tua barba que eu ache feio, e o contraste da meia-luz exaltou ainda mais teus olhos de gato. Por que tu brincas comigo, Dionísio? Me cobiças tanto se já me tens. Eu me dei pra ti. Por inteira.
Meus olhos tristes são teus, meu corpo anêmico também. Eu sou tua. Então finjas que não sou só uma garota no bar, que eu finjo que não sou só isso pra ti. Finjas que minha poesia o impressiona, que eu finjo que escrevo muito bem. Meu mal.
Tu estavas debaixo das minhas unhas novamente, de forma mais fugaz que a última vez. Eu lhe acariciei selvagemente o torso. Abotoei sua camisa e este momento viu quem quis ver. Sinto ciúmes desse teu corpo, queria muito cobri-lo com o meu. Sempre o mesmo bar, sempre o mesmo olhar. Tu és diabolicamente belo, tu parado ao meu lado, me convidando a fitar cada extensão do seu rosto na claridade miserável que o ambiente nos ofertava.
Não tem um fio de tua barba que eu ache feio, e o contraste da meia-luz exaltou ainda mais teus olhos de gato. Por que tu brincas comigo, Dionísio? Me cobiças tanto se já me tens. Eu me dei pra ti. Por inteira.
Meus olhos tristes são teus, meu corpo anêmico também. Eu sou tua. Então finjas que não sou só uma garota no bar, que eu finjo que não sou só isso pra ti. Finjas que minha poesia o impressiona, que eu finjo que escrevo muito bem. Meu mal.
sábado, 24 de outubro de 2015
Eu faço versos como quem morre
Ah, Dionísio... Minhas mãos são feias
Não são dignas de lhe tocar a face
O que somente me é permitido
é acomodar a caneta entre os dedos
e lhe afagar no papel
Os que cercam-me acham injusto
eu lhe devotar assim,
o impossível
me interessa muito, vos digo
Todavia, o platonismo deste momento
me corrompe as veias todas
Seus olhos verdes
profanaram toda minha desventura
de viver assim
Assim, rabiscando profundidades
Não quero ninar esta imprudência,
mas ela cai no meu colo implorando por zelo
Discuto comigo mesma,
perco-me em reflexões
Sei o caminho que devo tomar,
e vou por outro
O mais oculto, inacessível
Venho sonhando contigo, Dionísio,
até dormindo
Sonhos quentes,
como o verão que se aproxima
Posso dizer
que sinto pena dos homens
que me perdem?
Essa é uma constatação
quase que irreproduzível,
se tu me conhecesses além,
verias que sou humildezinha,
quase vil
Mas sinto pena deles,
porque poderiam virar livros
se quisessem
Tu, por exemplo
Não sei se socorrerás
a centena de poemas
que se atravancaram no meu lirismo
Das vezes que me leu,
não disse-me nada
Talvez lhe tenha ofendido
com a minha pretensão poética
Mas não quero lhe imaginar
tão vaidoso e mesquinho,
ao ponto de silenciar-se
diante do meu afeto gritante
Se eu fosse indiferente,
tu serias o que?
Título: Manuel Bandeira
Não são dignas de lhe tocar a face
O que somente me é permitido
é acomodar a caneta entre os dedos
e lhe afagar no papel
Os que cercam-me acham injusto
eu lhe devotar assim,
o impossível
me interessa muito, vos digo
Todavia, o platonismo deste momento
me corrompe as veias todas
Seus olhos verdes
profanaram toda minha desventura
de viver assim
Assim, rabiscando profundidades
Não quero ninar esta imprudência,
mas ela cai no meu colo implorando por zelo
Discuto comigo mesma,
perco-me em reflexões
Sei o caminho que devo tomar,
e vou por outro
O mais oculto, inacessível
Venho sonhando contigo, Dionísio,
até dormindo
Sonhos quentes,
como o verão que se aproxima
Posso dizer
que sinto pena dos homens
que me perdem?
Essa é uma constatação
quase que irreproduzível,
se tu me conhecesses além,
verias que sou humildezinha,
quase vil
Mas sinto pena deles,
porque poderiam virar livros
se quisessem
Tu, por exemplo
Não sei se socorrerás
a centena de poemas
que se atravancaram no meu lirismo
Das vezes que me leu,
não disse-me nada
Talvez lhe tenha ofendido
com a minha pretensão poética
Mas não quero lhe imaginar
tão vaidoso e mesquinho,
ao ponto de silenciar-se
diante do meu afeto gritante
Se eu fosse indiferente,
tu serias o que?
Título: Manuel Bandeira
quinta-feira, 15 de outubro de 2015
Ilusão dionísica
Os cosmos vibram e anseiam
por mais um novo poema
Vênus se entristece por mim,
por eu não ter mais ânimo pra isso
Escrever sobre pessoas rasas
virou meu fado permanente
O homem possuinte dos olhos verdes
quis me ver passar junto aos transeuntes
Porque eu fui mais uma pessoa
que lhe tocou sem realmente tocar
Nem astros, nem cosmos,
búzios e cartas
podem fazê-lo me notar
Eu cheguei nele
com minhas palavras dispostas
e com a alma em letargia
Ele nem sonha que é meu Dionísio,
minha escultura greco-romana,
minha lira mal feita
Se sonhasse, não dormiria mais
E eu digna de pena,
sempre querendo me ancorar nestes cais
Meu alimento queima no fogão
enquanto escrevo isso,
eu queimo inteira por ele
Por ele não me querer por tudo isso.
por mais um novo poema
Vênus se entristece por mim,
por eu não ter mais ânimo pra isso
Escrever sobre pessoas rasas
virou meu fado permanente
O homem possuinte dos olhos verdes
quis me ver passar junto aos transeuntes
Porque eu fui mais uma pessoa
que lhe tocou sem realmente tocar
Nem astros, nem cosmos,
búzios e cartas
podem fazê-lo me notar
Eu cheguei nele
com minhas palavras dispostas
e com a alma em letargia
Ele nem sonha que é meu Dionísio,
minha escultura greco-romana,
minha lira mal feita
Se sonhasse, não dormiria mais
E eu digna de pena,
sempre querendo me ancorar nestes cais
Meu alimento queima no fogão
enquanto escrevo isso,
eu queimo inteira por ele
Por ele não me querer por tudo isso.
terça-feira, 13 de outubro de 2015
Chico sabe, que ele me comeu com aqueles olhos de comer fotografia. Mas foi só isso.
Dionísio se desfez do meu encanto impalavrável
E eu voltei a não ter norte
Joguei as palavras no ar, para que ele as pegasse, as protegesse
Mas nada fez
Ficou as observando, com desdém, quiçá medo
Chegar como quem quer tudo, não foi uma boa ideia
No entanto, eu sou a dona dos sentimentos intempestivos
Ele decidiu que seríamos nada,
eu só posso esperar que a Poesia me abençoe
Já que os Deuses não me desculparam
Talvez ele tenha sido mais uma pessoa rasa
que tive o infortúnio de encontrar pelo caminho,
cuja pessoa encobri com minha profundidade
somente para comover os meus dias
Mas a comoção não foi libertadora
Eu me liberto agora, dessa paixão monumental
Paixão engessada, criada para não ser.
E eu voltei a não ter norte
Joguei as palavras no ar, para que ele as pegasse, as protegesse
Mas nada fez
Ficou as observando, com desdém, quiçá medo
Chegar como quem quer tudo, não foi uma boa ideia
No entanto, eu sou a dona dos sentimentos intempestivos
Ele decidiu que seríamos nada,
eu só posso esperar que a Poesia me abençoe
Já que os Deuses não me desculparam
Talvez ele tenha sido mais uma pessoa rasa
que tive o infortúnio de encontrar pelo caminho,
cuja pessoa encobri com minha profundidade
somente para comover os meus dias
Mas a comoção não foi libertadora
Eu me liberto agora, dessa paixão monumental
Paixão engessada, criada para não ser.
quinta-feira, 8 de outubro de 2015
Hilst que me perdoe II
Rasgo minha pele só pra ver como sou por dentro... Pois, não sinto borboletas sobrevoando meu estômago e de beleza interior nunca entendi nada.
Rasgo minha pele para ver o que há nas entranhas, nas tripas, nos ossos... Mas não me enxergo em nada.
Onde estou? Hilst, disse que eu não me movo de mim. Mas será que eu fui eu, enquanto escrevia isto?
15/09/2015
Rasgo minha pele para ver o que há nas entranhas, nas tripas, nos ossos... Mas não me enxergo em nada.
Onde estou? Hilst, disse que eu não me movo de mim. Mas será que eu fui eu, enquanto escrevia isto?
15/09/2015
sexta-feira, 2 de outubro de 2015
Os Deuses precisam me desculpar por esta utopia
Eu poderia fazer um chá e tentar dormir, agora mesmo 12:32, e acordar só amanhã. Mas esse deslumbramento não iria me abandonar nem com um sono profundo. Não paro de pensar naqueles olhos sobre mim, Adélia Prado entende essa minha nova paixão que gosta de judiar. Levo dias para conseguir formular uma frase que seja, para aliviar meu pútrido coração que nunca se restabelece, parece ter uma inexplicável atração pelo abismo. Estou apaixonada pelo homem mais alucinante da cidade, o encontrei naquele bar e me desencontrei de mim. Eu que nunca quis me achar.
Eu só queria mais tempo, tempo para traduzi-lo na minha pele e sentir medo e sentir o furor e sentir e sentir e apenas sentir. Estou caindo, e a tentação não está me alegrando. O que eu faço? Um banho gelado não vai esfriar minha mente que borbulha de encantamento. Estou cansada. Minha poesia não o alcançará. E eu não posso chorar por isso. Mas é desgastante. Ele é um homem sensível, mas a humanidade lhe comove mais do que a arte. Meus versos e minhas linhas corridas não vão lhe comover. Ele só vai correr de mim. Estou com medo de mim.
Eu queria lhe esquecer, mas a cidade é tão pequena. Vai me esfregar aquela escultura renascentista nas minhas fuças na mais próxima avenida. Ele sofre pelo mundo doente, e eu tenho medo de inventar uma nova doença por causa dele. Um amigo disse-me que fui picada pelo mosquito do diabo, receio muito, porque é a crua verdade. A verdade tem me agredido. Há madrugadas em que sonho com ele, e acordo pedindo perdão aos céus por tamanho disparate. Ele sabe que é uma divindade poética mesclada aos personagens mais boêmios e insanos de Bukowski, ele sabe da loucura, ele sabe do êxtase, ele sabe que seus olhos podem lhe garantir quase tudo e eu só quero saber se seus olhos lhe salvarão sempre.
Ele me faz ter vontade de escrever sem pontos finais, porque há muita coisa nele que eu desejo descobrir. Sobre todas as pessoas que escrevi, somente para ele quero mostrar tudo. Para que ele venha lembrar de mim pelo que escrevo, tal como Caio F. queria tanto. Eu poderia citar todos os meus escritores preferidos para tentar dizer o que preciso dizer, mas não sei o que quero dizer. O torpor começa quando eu penso. E tenho pensado diuturnamente. Como se ele fosse uma criatura mística que tenta em vão me deixar em eterno estado de desassossego, logo eu, que possuo uma alma anarquista.
Oscar Wilde escreveu que a paixão é um privilégio dos que não têm nada para fazer, mas ele também escreveu Dorian Gray, e veja bem, a minha divindade-poética-e mística também é a personificação desse personagem profano. Será que eu quero apenas o corpo dele repousando sob o meu ao findar a noite, para manter-me nesse estado perpétuo de adoração para ter o que escrever? Só sei que quando o vejo, fico louca. Meu olhar tenta se estender no dele, mas a ilusão me belisca forte. Quer trazer-me para a realidade que me parece tão irreal. Tudo culpa da literatura.
A vida dentro de um quarto trancado após os raios do meio dia, com alguém entorpecido pelo álcool e pela falta de tato só é atraente dentro das narrativas do velho safado. Fora isso, a solidão quer nos mastigar a todo instante. E o vazio sempre aparece no reflexo do espelho sujo. Tudo é muito decadente. Ele me intimida de modo imensurável. Essa tal sensação me acalenta e esbofeteia ao mesmo tempo... Porém, escrever sobre ele, tem colorido a minha vida - com o caos do problema - igualzinho àquela canção de Belle and Sebastian. Ele pode ter quem quiser, mas será que quer alguém? Ele é uma incógnita ambulante, e eu gosto disso. Não sei se ele é feliz ou triste, eu ficaria por horas escutando ele falar sobre o seu descontentamento sobre a vida e amor pela mesma.
Ele, nessas semanas todas tem sido ele. Eu tenho medo de assustá-lo, mas não consigo ficar quieta. Acho que este encantamento não deve ficar preso no papel, se não fará mal a ninguém, além de mim. E eu não quero me sentir mal, a minha poesia não merece me ver assim. Ele desdenhou daquele poema que lhe enviei, e eu segui a escrever. O incômodo persiste, mas não é maior que a vontade da aproximação. Não é a minha intenção forçar nada, eu posso vê-lo e desviar o olhar, eu posso vê-lo e fingir que não lhe contemplei nu. Eu posso ficar inerte, e esquecer tudo... Mas não quero.
Eu quero os olhos dele em mim para que eu possa escrever uma centena de poemas. Quero a combustão de não saber o que fazer, de não saber pra onde olhar, se ele me olhar de volta. Quero que ele me inspire até abrir um buraco dentro da minha cabeça.
Eu só queria mais tempo, tempo para traduzi-lo na minha pele e sentir medo e sentir o furor e sentir e sentir e apenas sentir. Estou caindo, e a tentação não está me alegrando. O que eu faço? Um banho gelado não vai esfriar minha mente que borbulha de encantamento. Estou cansada. Minha poesia não o alcançará. E eu não posso chorar por isso. Mas é desgastante. Ele é um homem sensível, mas a humanidade lhe comove mais do que a arte. Meus versos e minhas linhas corridas não vão lhe comover. Ele só vai correr de mim. Estou com medo de mim.
Eu queria lhe esquecer, mas a cidade é tão pequena. Vai me esfregar aquela escultura renascentista nas minhas fuças na mais próxima avenida. Ele sofre pelo mundo doente, e eu tenho medo de inventar uma nova doença por causa dele. Um amigo disse-me que fui picada pelo mosquito do diabo, receio muito, porque é a crua verdade. A verdade tem me agredido. Há madrugadas em que sonho com ele, e acordo pedindo perdão aos céus por tamanho disparate. Ele sabe que é uma divindade poética mesclada aos personagens mais boêmios e insanos de Bukowski, ele sabe da loucura, ele sabe do êxtase, ele sabe que seus olhos podem lhe garantir quase tudo e eu só quero saber se seus olhos lhe salvarão sempre.
Ele me faz ter vontade de escrever sem pontos finais, porque há muita coisa nele que eu desejo descobrir. Sobre todas as pessoas que escrevi, somente para ele quero mostrar tudo. Para que ele venha lembrar de mim pelo que escrevo, tal como Caio F. queria tanto. Eu poderia citar todos os meus escritores preferidos para tentar dizer o que preciso dizer, mas não sei o que quero dizer. O torpor começa quando eu penso. E tenho pensado diuturnamente. Como se ele fosse uma criatura mística que tenta em vão me deixar em eterno estado de desassossego, logo eu, que possuo uma alma anarquista.
Oscar Wilde escreveu que a paixão é um privilégio dos que não têm nada para fazer, mas ele também escreveu Dorian Gray, e veja bem, a minha divindade-poética-e mística também é a personificação desse personagem profano. Será que eu quero apenas o corpo dele repousando sob o meu ao findar a noite, para manter-me nesse estado perpétuo de adoração para ter o que escrever? Só sei que quando o vejo, fico louca. Meu olhar tenta se estender no dele, mas a ilusão me belisca forte. Quer trazer-me para a realidade que me parece tão irreal. Tudo culpa da literatura.
A vida dentro de um quarto trancado após os raios do meio dia, com alguém entorpecido pelo álcool e pela falta de tato só é atraente dentro das narrativas do velho safado. Fora isso, a solidão quer nos mastigar a todo instante. E o vazio sempre aparece no reflexo do espelho sujo. Tudo é muito decadente. Ele me intimida de modo imensurável. Essa tal sensação me acalenta e esbofeteia ao mesmo tempo... Porém, escrever sobre ele, tem colorido a minha vida - com o caos do problema - igualzinho àquela canção de Belle and Sebastian. Ele pode ter quem quiser, mas será que quer alguém? Ele é uma incógnita ambulante, e eu gosto disso. Não sei se ele é feliz ou triste, eu ficaria por horas escutando ele falar sobre o seu descontentamento sobre a vida e amor pela mesma.
Ele, nessas semanas todas tem sido ele. Eu tenho medo de assustá-lo, mas não consigo ficar quieta. Acho que este encantamento não deve ficar preso no papel, se não fará mal a ninguém, além de mim. E eu não quero me sentir mal, a minha poesia não merece me ver assim. Ele desdenhou daquele poema que lhe enviei, e eu segui a escrever. O incômodo persiste, mas não é maior que a vontade da aproximação. Não é a minha intenção forçar nada, eu posso vê-lo e desviar o olhar, eu posso vê-lo e fingir que não lhe contemplei nu. Eu posso ficar inerte, e esquecer tudo... Mas não quero.
Eu quero os olhos dele em mim para que eu possa escrever uma centena de poemas. Quero a combustão de não saber o que fazer, de não saber pra onde olhar, se ele me olhar de volta. Quero que ele me inspire até abrir um buraco dentro da minha cabeça.
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