Amanheceu
Eu passei batom e sai
Querendo que todos me vissem
Vissem o quão feliz eu sou
Mesmo que apenas eu saiba
que sou uma esfarrapada mentira
Sempre chego atrasada
Não sei atravessar a rua
e derramo café na roupa
Coloco os fones de ouvido
e finjo que não dói quando me ferem
Entardeceu
Deito no sofá, fecho os olhos
queria desintegrar, não existir
Leio poesia, finjo que escrevo poesia
Penso nos dias ceifando sonhos
Planos aperfeiçoando meu desespero
Escuto músicas doloridas
e vejo o sol dizendo adeus
Enquanto lembro que certas pessoas
nunca disseram nada
Anoiteceu
Puxo uma cadeira e me escoro na mesa
Olho para o nada
O pão não alimenta, nem o arroz
Me retiro e recito mantras
Amanhã ficará tudo bem...
Esqueço o batom e deito para dormir
Quem sabe eu sonhe e seja feliz mais vezes
E seja menos desastrada e não suje a roupa
E acorde mais cuidadosa e saiba olhar para a sinaleira
E que eu chore quando me ferirem
Porque sou humana
e a vida é besta
Deus e Drummond
souberam disso antes de mim.
domingo, 25 de setembro de 2016
quarta-feira, 14 de setembro de 2016
Sobre o G
Eu não queria escrever sobre ele por causa do estereótipo de escrever sobre alguém e criar irrealidades acerca do que me é permitido ver. Mas como creio já ter finalizado nossos remotos encontros sórdidos, agora me sinto livre para discorrer sobre as feições joviais e pele alva e cheiro de vontade à flor da pele desse menino que me emaranhou em edredom e excitação.
Seu gosto na minha boca, suas mãos na minha cintura, ele em mim... Isso poderia se tornar um conto erótico se eu fosse menos contida. Seus vinte anos reacenderam minha fome de perdição de selvageria de lascívia. Ele é conhecido por suas tesouras e navalhas, ele é artista também. Eu corro com tesouras imaginárias e sou cortada de tudo que possa se tornar bonito ou edificante, me acostumei com isso. Sempre nos acostumamos ao que não devíamos.
Eu não deveria ter achado aquela cicatriz no abdômen dele, a coisa mais pura que vi nos últimos tempos. Não sei da sua história, mas me comoveu só de olhar. Sem a audácia, sem o corpo em chamas, ele só um menino. Ele é um homem que não deveria envelhecer nunca. Talvez não nos toquemos mais, porque hoje eu escrevi isso, mas foi natural. Como uma boa atração epidérmica.
06/09/2016
Seu gosto na minha boca, suas mãos na minha cintura, ele em mim... Isso poderia se tornar um conto erótico se eu fosse menos contida. Seus vinte anos reacenderam minha fome de perdição de selvageria de lascívia. Ele é conhecido por suas tesouras e navalhas, ele é artista também. Eu corro com tesouras imaginárias e sou cortada de tudo que possa se tornar bonito ou edificante, me acostumei com isso. Sempre nos acostumamos ao que não devíamos.
Eu não deveria ter achado aquela cicatriz no abdômen dele, a coisa mais pura que vi nos últimos tempos. Não sei da sua história, mas me comoveu só de olhar. Sem a audácia, sem o corpo em chamas, ele só um menino. Ele é um homem que não deveria envelhecer nunca. Talvez não nos toquemos mais, porque hoje eu escrevi isso, mas foi natural. Como uma boa atração epidérmica.
06/09/2016
sexta-feira, 9 de setembro de 2016
Para o homem das mãos firmes e palavras voláteis
Ele foi embora
Numa linda tarde de quarta-feira
Levou suas coisas, sua gata
E seu diploma
Sem a mais ínfima vontade,
levou uma parte de mim também
Ele me magoou,
eu o desmascarei
Ambos sentimos raiva
Também fui capaz de sentir paixão
Meu homem de dois andares
e olhos verdes
Verdes famintos
Pode ser que daqui há 10 anos
eu esqueça seu nome
Mas hoje eu deixaria
ele me fazer um filho
Hoje eu digo que deitaria ao lado dele
todas as noites
do resto da minha vida
Mas nunca mais nos veremos
Seu sotaque vai me atormentar
Quando eu escutar outra pessoa
falando "porta" daquele jeito
Ninguém mais me tocará
como ele
Ninguém mais me machucará
assim
Escondendo verdades,
me queimando no colchão
Fizemos amor como quem sabe
que o amanhã pode não chegar
O nosso não chegou
Ele deve estar percorrendo
alguma estrada agora
Como percorreu vários corpos
nessa cidade
Com zelo e fugacidade
Sempre com o intuito de dizer adeus
Sentirei falta dos olhos
e do sexo
Da mágoa não
Mágoa que não nos deixou
criar uma despedida
Nós dois queríamos ter a razão
E não conseguimos ter um ao outro.
13/07
Numa linda tarde de quarta-feira
Levou suas coisas, sua gata
E seu diploma
Sem a mais ínfima vontade,
levou uma parte de mim também
Ele me magoou,
eu o desmascarei
Ambos sentimos raiva
Também fui capaz de sentir paixão
Meu homem de dois andares
e olhos verdes
Verdes famintos
Pode ser que daqui há 10 anos
eu esqueça seu nome
Mas hoje eu deixaria
ele me fazer um filho
Hoje eu digo que deitaria ao lado dele
todas as noites
do resto da minha vida
Mas nunca mais nos veremos
Seu sotaque vai me atormentar
Quando eu escutar outra pessoa
falando "porta" daquele jeito
Ninguém mais me tocará
como ele
Ninguém mais me machucará
assim
Escondendo verdades,
me queimando no colchão
Fizemos amor como quem sabe
que o amanhã pode não chegar
O nosso não chegou
Ele deve estar percorrendo
alguma estrada agora
Como percorreu vários corpos
nessa cidade
Com zelo e fugacidade
Sempre com o intuito de dizer adeus
Sentirei falta dos olhos
e do sexo
Da mágoa não
Mágoa que não nos deixou
criar uma despedida
Nós dois queríamos ter a razão
E não conseguimos ter um ao outro.
13/07
quarta-feira, 31 de agosto de 2016
Por não ser real, eu me perdi na calma do não.
Um ano
50 poemas
Um codinome
Um nome com sete letras
Os olhos
Com o tom de verde mais bonito que já vi
A pessoa que mais me entristeceu
Pérfido inescrupuloso sujo
Um homem comum
Um personagem endeusado
Meu coração cortado à lâmina
O ego dele festeja
enquanto minha dignidade rasteja
Se dor rima com calor
Você poderia me abraçar de novo
Porque vai arder
quando no mesmo segundo
eu lembrar
que você não é meu
Também não sou minha
Sou de Dionísio, mais do que fui sua
Quem é Dionísio? Quem sou eu?
Queima...
(Será que você pode escutar Creep do Radiohead por mim, pela última vez?)
50 poemas
Um codinome
Um nome com sete letras
Os olhos
Com o tom de verde mais bonito que já vi
A pessoa que mais me entristeceu
Pérfido inescrupuloso sujo
Um homem comum
Um personagem endeusado
Meu coração cortado à lâmina
O ego dele festeja
enquanto minha dignidade rasteja
Se dor rima com calor
Você poderia me abraçar de novo
Porque vai arder
quando no mesmo segundo
eu lembrar
que você não é meu
Também não sou minha
Sou de Dionísio, mais do que fui sua
Quem é Dionísio? Quem sou eu?
Queima...
(Será que você pode escutar Creep do Radiohead por mim, pela última vez?)
domingo, 21 de agosto de 2016
Meu amado não me amou
Não encontrarás um cravo ou
uma rosa, uma flor na minha literatura.
Mas encontrarás um punhal ou um fuzil.
Jorge Amado
Todos eles falavam dos meus olhos - tristes
Mas você não teve olhos
Para ver os meus olhos
E eu não conseguia enxergar isso
O deslumbramento me anuvia sempre
Depois do que se sucedeu,
o vermelho daquela esquina
me faz ter vontade de gritar coisas horríveis
Paletas de cores
de qualquer loja de tintas
Me farão sentir raiva e repulsa
Te vi com olhos de poesia
Porque adensei sua feiura
Me perdi no seu corpo gelado
Por querer escrever versos drummondianos
em sua pele com minha boca quente
Eu congelei
Meu Deus, eu congelei.
11/08
uma rosa, uma flor na minha literatura.
Mas encontrarás um punhal ou um fuzil.
Jorge Amado
Todos eles falavam dos meus olhos - tristes
Mas você não teve olhos
Para ver os meus olhos
E eu não conseguia enxergar isso
O deslumbramento me anuvia sempre
Depois do que se sucedeu,
o vermelho daquela esquina
me faz ter vontade de gritar coisas horríveis
Paletas de cores
de qualquer loja de tintas
Me farão sentir raiva e repulsa
Te vi com olhos de poesia
Porque adensei sua feiura
Me perdi no seu corpo gelado
Por querer escrever versos drummondianos
em sua pele com minha boca quente
Eu congelei
Meu Deus, eu congelei.
11/08
quarta-feira, 17 de agosto de 2016
Nove décimos de mim já morreram, mas eu guardo o décimo restante como uma arma.
Ninguém se procura, ninguém se cuida. E tristemente, ninguém se entende. Palavras proferidas, silêncios devolvidos. Os danos são atemporais porque as histórias se repetem, se você me magoou foi porque eu deixei, se eu deixei foi porque acreditei que também pudesse me fazer bem. Se eu lhe magoei, peço desculpa. Todas as sensações se embaralham e me exaurem, eu penso tanto no definitivo e na fugacidade. Um homem terno e dolorido, escreveu por mim que, se você pisca quando torna a abrir os olhos, o lindo fica feio. Por isso que a utopia é urgente, quando deito a cabeça no travesseiro e não consigo dormir, é quando sonho com pessoas gentis e uma vida menos ensaiada.
Eu preciso dissipar - por meros minutos - a certeza de que ninguém se procura por carinho. E é mais cômodo dizer um "cuide-se" do que cuidar de alguém, porque no fundo não cuidamos nem de nós mesmos. Estudos nos aconselham a beber mais água, a praticar exercícios e dormir bem. Mas para as pessoas que sentem, dormir bem é piada. E esse excesso de sensibilidade também é um deboche divino. Se escrevo é porque não entendo, mas gostaria. Se escrevo é porque preciso ler isso tudo mais tarde, e crer que essa exatidão pode muito mais do que agredir.
Você certamente já teve momentos como esse, de prestar a atenção nos ruídos do dia acordando, o barulho dos carros, o som dos passos atrasados dos transeuntes. Aliás, gosto muito dessa palavra "transeunte", pela representação do que nunca cessa, do que nunca para. Você olhou para o alto? Os pássaros decorando o céu, enquanto eu sinto inveja por ser só isso. Sente as árvores derrubando folhas sobre nossas cabeças cansadas? E essas buzinas e sirenes e cães latindo. Infernal, não é?! Ou é a vida acontecendo em volta enquanto perdemos mais um dia ou ganhamos o mesmo. Eu não me acostumo. Está escutando os carros de propaganda? O arroz mais caro, a festa chata que vai ter no final de semana, mas que iremos para fingir que somos sociáveis e felizes. A música do taxista, enquanto ele limpa seu veículo estacionado, tão piegas quanto os meus pensamentos diários. E aquela mulher que acabou de jogar o papel da bala na calçada? Nojenta. Eu vi.
Mas o que somos quando ninguém nos vê? Somos iguais a ela. Somos nojentos só por estarmos respirando. É tudo trágico, meu bem. Mesmo estando na merda, sendo uma merda e vivendo entre uns merdas... Eu preciso sonhar quando coloco minha cabeça no travesseiro.
09/08
Título: Charles Bukowski
Eu preciso dissipar - por meros minutos - a certeza de que ninguém se procura por carinho. E é mais cômodo dizer um "cuide-se" do que cuidar de alguém, porque no fundo não cuidamos nem de nós mesmos. Estudos nos aconselham a beber mais água, a praticar exercícios e dormir bem. Mas para as pessoas que sentem, dormir bem é piada. E esse excesso de sensibilidade também é um deboche divino. Se escrevo é porque não entendo, mas gostaria. Se escrevo é porque preciso ler isso tudo mais tarde, e crer que essa exatidão pode muito mais do que agredir.
Você certamente já teve momentos como esse, de prestar a atenção nos ruídos do dia acordando, o barulho dos carros, o som dos passos atrasados dos transeuntes. Aliás, gosto muito dessa palavra "transeunte", pela representação do que nunca cessa, do que nunca para. Você olhou para o alto? Os pássaros decorando o céu, enquanto eu sinto inveja por ser só isso. Sente as árvores derrubando folhas sobre nossas cabeças cansadas? E essas buzinas e sirenes e cães latindo. Infernal, não é?! Ou é a vida acontecendo em volta enquanto perdemos mais um dia ou ganhamos o mesmo. Eu não me acostumo. Está escutando os carros de propaganda? O arroz mais caro, a festa chata que vai ter no final de semana, mas que iremos para fingir que somos sociáveis e felizes. A música do taxista, enquanto ele limpa seu veículo estacionado, tão piegas quanto os meus pensamentos diários. E aquela mulher que acabou de jogar o papel da bala na calçada? Nojenta. Eu vi.
Mas o que somos quando ninguém nos vê? Somos iguais a ela. Somos nojentos só por estarmos respirando. É tudo trágico, meu bem. Mesmo estando na merda, sendo uma merda e vivendo entre uns merdas... Eu preciso sonhar quando coloco minha cabeça no travesseiro.
09/08
Título: Charles Bukowski
domingo, 14 de agosto de 2016
Sutil afago em meus sentidos
Eu perdi as estribeiras, querido
Posso lhe chamar de querido?
Mesmo que soe tão falso
como sua bondade
Eu pensei em jogar bilhetes
no seu quintal
Eu quis pichar a calçada do seu trabalho
Senti vontade de colar panfletos
do que te escrevi
nos postes todos da rua dos Andradas
Mas pessoas como você
não merecem nem a água que bebem
É como se apenas sobrevivessem
de egocentrismo
Após entender isso,
escutei músicas horríveis
só para conseguir chorar de verdade
Eu conheci homens adoráveis, e vis também
Por muito tempo eu me esquivei
de toques
de olhares
minuciosos
Depois descobri a delícia
de abraçar quem quer me abraçar
de despir quem quer se desproteger
somente para mim
Mas ainda penso em você
quando lembro de sentimentos arredios
e toques aveludados
Você conseguia elaborar uma réplica de paixão
embasada num olhar abrasivo
Você me tocou e eu me senti viva.
02/08
Título: Manuel Bandeira
Posso lhe chamar de querido?
Mesmo que soe tão falso
como sua bondade
Eu pensei em jogar bilhetes
no seu quintal
Eu quis pichar a calçada do seu trabalho
Senti vontade de colar panfletos
do que te escrevi
nos postes todos da rua dos Andradas
Mas pessoas como você
não merecem nem a água que bebem
É como se apenas sobrevivessem
de egocentrismo
Após entender isso,
escutei músicas horríveis
só para conseguir chorar de verdade
Eu conheci homens adoráveis, e vis também
Por muito tempo eu me esquivei
de toques
de olhares
minuciosos
Depois descobri a delícia
de abraçar quem quer me abraçar
de despir quem quer se desproteger
somente para mim
Mas ainda penso em você
quando lembro de sentimentos arredios
e toques aveludados
Você conseguia elaborar uma réplica de paixão
embasada num olhar abrasivo
Você me tocou e eu me senti viva.
02/08
Título: Manuel Bandeira
Assinar:
Postagens (Atom)
