segunda-feira, 7 de novembro de 2016

E ele é, o meu amor pelos espaços

De manhã eu queria não lembrar
Minha desventura é recordar
Do andar majestoso
E de cada ruga ao lado dos olhos
Verdes lindíssimos]
O aroma amadeirado e de notas fortes
Mesclado ao cheiro de solidão opcional
Saudade
de cada centímetro da sua pele
onde eu pude habitar
Os dias têm sido tão angustiosos
Sem a certeza de que você ainda me lê
e de que aceita essa minha paixão estrófica
Aceita?
Deixa eu te purificar com minha interioridade invulgar
Como se eu fosse divina
Como se eu fosse profética
Como sou sua.


Título: Florbela Espanca

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Me queira bem, meu bem.

Suas mãos
em volta do meu pescoço
enquanto se deleitava em mim - Eu lembro
Nossos suores
se transmutando em vontade
de sermos um só
Pelo menos por alguns segundos
Minha respiração embargada
nos ouvidos do único homem
que fez-me sentir
mulher
Seus olhos flamejantes
Me passando a sentença
de que juntos
Somos sim,
produtos inflamáveis
dentro dessa atração perigosa
Eu te quero tanto, homem
Deixa-me decorar sua nuca
com minhas marcas de amor marginal
Seja meu
Dionísio
Rodrigo
João
Seja o homem que me queira
e não precise de mais ninguém.



















Imagem: Nickie Zimov

sábado, 15 de outubro de 2016

A grande mentira que ele era, era verdade.

                                                          Sugiro que leia escutando Olhos nos olhos, na voz de Maria Bethânia.




   Lembro da madrugada que eu estava no bar e entreguei uma carta para ele e logo depois o vi beijando uma menina, quis chorar e saí pra fora, liguei para uma amiga às 4 da manhã dizendo que queria voltar lá e pedir minha carta de volta. É engraçado, mas dói bastante ainda. Sabe quando acontece algo ruim? E você pensa: Daqui há um ano estarei rindo disso.
   Um ano depois, não estou rindo. Porque foi algo pesado. Sou apaixonada pelo que inventei dele, a única coisa que é real são aqueles olhos verdes famintos. Ele é o homem mais lindo da cidade. Não digo só pela aparência, mas a maneira como ele anda e se porta, o jeito que ele pisca os olhos... É lírico. 
   Eu o reconheço de qualquer jeito e isso me entristece. Vê-lo andando distraído pelas ruas dessa cidade acaba comigo. Porque eu me distraí escrevendo sobre ele e agora não há nada. Nunca houve, apenas migalhas. Mas eu me agarrei tanto nisso. Ainda sonho com ele e acordo me perguntando o porquê. Calcanhotto perguntou para que servem as ruas, e eu também gostaria de saber. Mas para que serve esse desgosto com gosto agridoce na boca? Por que digo seu nome na intenção de me salvar? 
   Não posso lhe trazer de volta para minha vida cada vez que o vejo no outro lado da rua sorrindo para o estrago. Me sinto uma criança de 5 anos que só quer sair correndo sem perceber que vai tropeçar nos próprios pés. Eu sempre tropeço por ele.

Obrigada, Caio Fernando... Pelo título.


sábado, 8 de outubro de 2016

des.co.nhe.ci.do (particípio de desconhecer)

                         Pessoa cuja identidade se desconhece; estranho


   Inventam datas para tudo, não é mesmo? Já pode virar feriado nacional o dia que você me deu o último beijo embaixo da chuva naquele fim de noite? Ah, já é feriado, de Tiradentes. Cê lembra? Essas coisas corriqueiras também deveriam sair no jornal. 
   Eu acho que te amo agora, porque depois de tanto tempo sem nos falarmos, sem nos vermos, sem querer, eu tirei o dia para pensar em você e escrever isso. Juro que troquei a estação do rádio agora e está tocando aquela música de quando eu te toquei pela primeira vez no escuro da sua sala. Queria que você estivesse lendo isso e me perguntasse que música é... 
   É, não te esqueço. Você me cortou e jogou sal nas minhas feridas e mesmo assim eu escrevo. Não consegui me apaixonar por outra pessoa, a cidade me embrulha homens mais vulgares que você e eu acho graça. Só em você achei poesia.



















Imagem: Demi McCulloch

domingo, 25 de setembro de 2016

Amanhã recomeço e envelheço

        Amanheceu
Eu passei batom e sai
Querendo que todos me vissem
Vissem o quão feliz eu sou
Mesmo que apenas eu saiba 
que sou uma esfarrapada mentira
Sempre chego atrasada
Não sei atravessar a rua
e derramo café na roupa
Coloco os fones de ouvido 
e finjo que não dói quando me ferem
        Entardeceu
Deito no sofá, fecho os olhos
queria desintegrar, não existir
Leio poesia, finjo que escrevo poesia
Penso nos dias ceifando sonhos
Planos aperfeiçoando meu desespero
Escuto músicas doloridas 
e vejo o sol dizendo adeus
Enquanto lembro que certas pessoas 
nunca disseram nada
         Anoiteceu
Puxo uma cadeira e me escoro na mesa
Olho para o nada
O pão não alimenta, nem o arroz
Me retiro e recito mantras
Amanhã ficará tudo bem...
Esqueço o batom e deito para dormir
Quem sabe eu sonhe e seja feliz mais vezes
E seja menos desastrada e não suje a roupa
E acorde mais cuidadosa e saiba olhar para a sinaleira
E que eu chore quando me ferirem
Porque sou humana
e a vida é besta
Deus e Drummond 
souberam disso antes de mim.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Sobre o G

    Eu não queria escrever sobre ele por causa do estereótipo de escrever sobre alguém e criar irrealidades acerca do que me é permitido ver. Mas como creio já ter finalizado nossos remotos encontros sórdidos, agora me sinto livre para discorrer sobre as feições joviais e pele alva e cheiro de vontade à flor da pele desse menino que me emaranhou em edredom e excitação. 
   Seu gosto na minha boca, suas mãos na minha cintura, ele em mim... Isso poderia se tornar um conto erótico se eu fosse menos contida. Seus vinte anos reacenderam minha fome de perdição de selvageria de lascívia. Ele é conhecido por suas tesouras e navalhas, ele é artista também. Eu corro com tesouras imaginárias e sou cortada de tudo que possa se tornar bonito ou edificante, me acostumei com isso. Sempre nos acostumamos ao que não devíamos. 
   Eu não deveria ter achado aquela cicatriz no abdômen dele, a coisa mais pura que vi nos últimos tempos. Não sei da sua história, mas me comoveu só de olhar. Sem a audácia, sem o corpo em chamas, ele só um menino. Ele é um homem que não deveria envelhecer nunca. Talvez não nos toquemos mais, porque hoje eu escrevi isso, mas foi natural. Como uma boa atração epidérmica.

06/09/2016

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Para o homem das mãos firmes e palavras voláteis

Ele foi embora
Numa linda tarde de quarta-feira
Levou suas coisas, sua gata
E seu diploma
Sem a mais ínfima vontade, 
levou uma parte de mim também
Ele me magoou, 
eu o desmascarei
Ambos sentimos raiva
Também fui capaz de sentir paixão
Meu homem de dois andares 
e olhos verdes
Verdes famintos
Pode ser que daqui há 10 anos 
eu esqueça seu nome
Mas hoje eu deixaria 
ele me fazer um filho 
Hoje eu digo que deitaria ao lado dele 
todas as noites
do resto da minha vida
Mas nunca mais nos veremos
Seu sotaque vai me atormentar
Quando eu escutar outra pessoa 
falando "porta" daquele jeito 
Ninguém mais me tocará 
como ele
Ninguém mais me machucará 
assim
Escondendo verdades,
me queimando no colchão
Fizemos amor como quem sabe 
que o amanhã pode não chegar
O nosso não chegou
Ele deve estar percorrendo 
alguma estrada agora
Como percorreu vários corpos 
nessa cidade
Com zelo e fugacidade
Sempre com o intuito de dizer adeus

Sentirei falta dos olhos
e do sexo 
Da mágoa não 
Mágoa que não nos deixou
criar uma despedida
Nós dois queríamos ter a razão
E não conseguimos ter um ao outro.

13/07