Não sei aonde você se esconde quando não lhe vejo em estacionamentos e correndo no fim de uma sexta-feira quente Você sumiu dos bares Das noites Mas não dos meus poemas Mesmo que eu conheça cem homens e escreva sobre mais dez Nem um possui sua vulgaridade estonteante Ninguém desperta em mim essa paixão descomunal Que faz eu desgostar de Tim Maia Só por saber que você o escuta pensando em outra pessoa Eu penso em você quando algum outro me põe a faca no peito Corta meu coração a lâmina somente por não se interessar em conhecer a Adélia Prado Tim disse por você que ela partiu e nunca mais voltou
Tim disse por mim que meu coração pensa que não vai ser possível Mas toda vez que eu olho...
Preciso de um abajur novo. Lembrei que não tenho um abajur. Quando nos beijamos tocou Nando Reis no seu carro. Mas você desligou o som, talvez por achar que era demais pra nós dois. Não queria escrever sobre isso. Mas a música pedia para você cuidar bem de mim, misturar tudo dentro de nós. Depois só pude ouvir sua boca estalando na minha pele. Será mesmo que ninguém vai dormir nossos sonhos? Você some da minha vida e eu sempre torço para ser a última vez. Eu brigo, eu maldigo, peço para você apagar meu número. Duas semanas depois estou lhe procurando bêbada às 6 da manhã. No mesmo dia nos avistamos numa avenida abarrotada de carros e transeuntes. Você não diz nada. Eu juro não lhe querer nunca mais. Mas sonho com você, escuto amigas dizendo que você não me merece, mas que talvez daqui há um mês me procure como se estivesse tudo bem. Você sabe que o tempo não faz as coisas ficarem bem. Já lhe disse isso. O tempo está me dizendo que algum hábito meu o desagradou. Meu hábito de querer atenção. Título: Nelson Rodrigues
Durante o processo de esquecimento qualquer mera lembrança rodopia insinuando-se No domingo você lembra que o jogo de futebol do time dele passará na tv Na segunda-feira um carro igual ao dele cruza há duas quadras e suas pernas recriam um terremoto Na terça-feira entre às 19 ou 20h lembra que ele está na academia Já na quarta-feira ele deve estar procurando algo na Netflix, ou no Tinder Na quinta-feira ele abrevia a cerveja com os amigos num posto de conveniência, percorre a agenda do Whatsapp e envia uma mensagem para a pessoa mais acessível do momento - Já fui essa pessoa Na sexta-feira você lembra que ele vai trabalhar escutando um jazz no último volume, consequentemente, lembra que ele disse um dia ter gravado uma playlist da Billie Holiday para você, mas nunca escutaram juntos Na madrugada de sexta para sábado, você imagina que ele pode estar transando na garagem de casa com alguma mulher mais jovem que você - como vocês já fizeram Toda semana você lembra Que ele era a sua alma gêmea - Mas só na cama E que ele personificou o cara mais maduro só por querer ver a sua calcinha Enquanto você queria que ele visse seus poemas Sem se assustar.
Título: Ele precisava ser longo, pois, Tati Bernardi se doeu ao escrevê-lo por mim.
Eu escorreguei na nudez dele E meus pés descalços temeram esmagar qualquer chance De libertação Que o tatear captasse dentro daquele quarto escuro Dizíamos coisas disformes Porque não nos importávamos com mais nada Gonzaguinha poderia rasgar sua voz no rádio Que continuaríamos inteiros Dissimulando disfarçando escondendo Sem revelar jamais Que poderíamos sim Caber numa conta de mais Descendo ladeiras Vislumbrando um céu de chumbo Escrevendo sobre a solidão embaixo do viaduto Em qualquer circunstância Eu não sei me fazer interessante para quem me interessa Quem me despe não me olha Quem me olha não quer me tocar Queria que ele soubesse ficar E fizesse uma planta brotar na minha face Tão selvagem e impalpável Áspera e cortante Só para retratar o contrário do que sou por dentro Por dentro eu sou azul Ele saberia disso se ficasse.
Lembro Enquanto assisto televisão Saio para passear Ou me vejo à toa Lembro Do cheiro Da boca Das mãos Do teu peso sobre mim E da leveza que de mim sai E paira sobre o ar Tu pareces não valer muita coisa Talvez caiba no meu orçamento Diz não ser o homem que eu penso Mas eu penso em tantas coisas Meu interesse se alastra A repulsa por essa causalidade também Meu corpo te quer Porém, eu cansei de ser teu subterfúgio As artimanhas para me emaranhar nesse desejo São tão vis quanto deleitosas Tu sabes como eu gosto Eu sou mera aprendiz Me deixa queimar dentro dessa fixação inflamável E lembre do meu nome em meio às chamas Me chama. Título: Referência a Hilda Hilst
Outro caso Que levamos com descaso Nosso medo de nos envolver De acabarmos seduzidos Você me deu prazer Eu lhe dei prazer Mas nosso Sol em Libra dramatizou tudo Eu lhe toquei com carinho fome exatidão Você me tocou com afeto desejo despretensão Não fomos nada inocentes dentro dessa atração Você gemendo nos meus ouvidos Eu vou lembrar em outras camas que eu deitar Eu batendo na sua porta às 5 da manhã Você vai lembrar enquanto tentar conhecer outras mulheres As brigas Palavras difusas Você me querendo num dia - E repetindo infindáveis vezes - No outro fala pra eu não mais procurá-lo Acabou tudo Que tudo? Não tivemos nada Suas camisas que sujei de batom Meus cabelos decorando o chão da sua casa Logo isso vai será nada Você queria que eu escrevesse sobre isso, só não sabia que ia ser o final.
[com você eu tenho mesmo que me conformar] Ele gosta de beijar homens. E ele queria um lugar que pudesse beija-los e ser visto sem pudor e espanto. Ele quer beijar homens durante o dia, longe das quatro paredes e longe do breu da noite. Ele é um desses caras, extremamente bonito que a mãe cobra dois netos e que arruína mulheres com seu perfume e olhar por entre óculos escuros ao cruzar a avenida. Ele quer beijar outro cara, mas ele arquitetou um personagem para si mesmo, aquele que vive nos bares se deleitando nos pescoços da juventude feminina da cidade. Mas ele beija rapazes porque é o que mais gosta de fazer. Ele está beirando os trinta anos e só quer beijar outro homem em frente ao quiosque, ou dentro do mesmo bar que tenta ter uma ereção ao beijar uma mulher, duas mulheres por madrugada. Ele parte o coração das mesmas quando se deita com elas e faz tudo certo, goza e oferece orgasmos e afagos (e)ternos. Depois nunca mais. Ele continua vazio. Este papel está lhe cansando. Ele quer beijar o seu rapaz no meio da praça central, depois encostar sua cabeça no ombro dele e suspirar após um dia de poucas vendas no trabalho. Ele quer que a sociedade entenda que ele gosta mais de ser penetrado do que penetrar. Mas ele penetra vidas e borra batons até o raiar do dia enquanto pensa que pode tentar fazer com que suas vontades sejam respeitadas mais tarde. Agora ele só quer ser o homem que beija mulheres como quem toca em algodão doce. Ele é doce, e há sempre alguém que se desfaça. 17/10/2016