quarta-feira, 8 de março de 2017

Me chama. Me toca sim, mas me cuida.

Você disse que sentia a minha falta
E eu fui correndo
Pois a minha saudade era tanta
Nos emaranhamos em desejo e ternura
Como se não existisse distância

Seu cheiro de roupa limpa
Sua expressão de sentidos bagunçados
Passear pelo seu corpo
brincando nas sinuosidades

Eu sempre volto pra você
Eu sempre me deterioro por você

Eu apodreço em suas mãos
mesmo que você me colha na hora certa
Nunca serei madura dentro desse declínio 

Você me abraça e o mundo não para
E eu padeço pelo excesso de realidade

Você não é meu

Eu sou a sua pequena, viu?
Você disse isso nos meus ouvidos
e eu consinto

E te sinto,
na medida que você me permite.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Eu continuo dançando sozinha

17 
o número de dias que não nos falamos
Desta vez eu sinto que vai ser para sempre
já que eu disse pra ele fingir que não me conhece
acaso me veja na rua

Ele tirou minha roupa inúmeras vezes
ele tirou de mim a vontade de ser alguém só

Mas estou só agora
no fim de um carnaval fatídico 

Noutrora ele disse que 
eu fazia um grande evento sobre todas as coisas
Vai ver porque não sabia lidar com a minha alma festiva

Eu não podia esperar mais 
do que uma recepção sexualmente calorosa
de alguém que só dormiu do meu lado uma única vez

Sempre havia um porém
Sempre um mas para desestruturar a história

Nunca nos vimos numa festa
no meio de pessoas chatas
Nunca pude sentir ciúmes 
de outra mulher na sua volta

Não que eu quisesse isso
Por mais que eu sinta ciúmes até hoje 
ao saber da sua estadia em sites de relacionamentos fáceis

Mas nunca o vi no meio da multidão 
pra ter certeza que ele era único pra mim

Não lembro da sua altura perto de mim
porque sempre lhe via sentado no banco do carro 
ou deitado na cama

Eu posso lembrar do seu riso
do seu cheiro
e do gosto da sua pele na minha boca

Mas é tudo tão amargo 
quando eu lembro do quanto ele se desfez 
ao destilar seu desdém em poucas palavras

Como se fosse fácil encontrar alguém como eu 
num próximo clique.


Good Lucky



quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

...

Não sei aonde você se esconde
quando não lhe vejo em estacionamentos
e correndo no fim de uma sexta-feira quente

Você sumiu dos bares
Das noites
Mas não dos meus poemas

Mesmo que eu conheça cem homens
e escreva sobre mais dez
Nem um possui sua vulgaridade estonteante

Ninguém desperta em mim
essa paixão descomunal

Que faz eu desgostar de Tim Maia
Só por saber que você o escuta 
pensando em outra pessoa

Eu penso em você 
quando algum outro me põe a faca no peito
Corta meu coração a lâmina
somente por não se interessar 
em conhecer a Adélia Prado

Tim disse por você 
que ela partiu e nunca mais voltou

Tim disse por mim 
que meu coração pensa
que não vai ser possível

Mas toda vez que eu olho...








sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

A pior forma de solidão é o sexo sem amor

Preciso de um abajur novo. Lembrei que não tenho um abajur. Quando nos beijamos tocou Nando Reis no seu carro. Mas você desligou o som, talvez por achar que era demais pra nós dois. Não queria escrever sobre isso. Mas a música pedia para você cuidar bem de mim, misturar tudo dentro de nós. Depois só pude ouvir sua boca estalando na minha pele. Será mesmo que ninguém vai dormir nossos sonhos? Você some da minha vida e eu sempre torço para ser a última vez. Eu brigo, eu maldigo, peço para você apagar meu número. Duas semanas depois estou lhe procurando bêbada às 6 da manhã. No mesmo dia nos avistamos numa avenida abarrotada de carros e transeuntes. Você não diz nada. Eu juro não lhe querer nunca mais. Mas sonho com você, escuto amigas dizendo que você não me merece, mas que talvez daqui há um mês me procure como se estivesse tudo bem. Você sabe que o tempo não faz as coisas ficarem bem. Já lhe disse isso. O tempo está me dizendo que algum hábito meu o desagradou. Meu hábito de querer atenção.

Título: Nelson Rodrigues



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Solidão é coisa séria e ela também se esconde, não menos esplendorosa, em pequenas e descartáveis histórias como a nossa


Durante o processo de esquecimento 
qualquer mera lembrança 
rodopia 
insinuando-se

No domingo você lembra 
que o jogo de futebol 
do time dele passará na tv

Na segunda-feira um carro 
igual ao dele 
cruza há duas quadras 
e suas pernas recriam um terremoto

Na terça-feira entre às 19 ou 20h 
lembra que ele está na academia

Já na quarta-feira ele deve 
estar procurando algo na Netflix, 
ou no Tinder

Na quinta-feira ele abrevia a cerveja 
com os amigos 
num posto de conveniência, 
percorre a agenda do Whatsapp 
e envia uma mensagem 
para a pessoa mais acessível 
do momento - Já fui essa pessoa

Na sexta-feira você lembra 
que ele vai trabalhar escutando um jazz 
no último volume, 
consequentemente, lembra que 
ele disse um dia 
ter gravado uma playlist 
da Billie Holiday para você, 
mas nunca escutaram juntos

Na madrugada de sexta 
para sábado, você imagina que 
ele pode estar transando 
na garagem de casa 
com alguma mulher 
mais jovem que você - como vocês já fizeram

Toda semana você lembra
Que ele era a sua alma gêmea
- Mas só na cama
E que ele personificou o cara mais maduro 
só por querer ver a sua calcinha
Enquanto você queria que 
ele visse seus poemas
Sem se assustar.



Título: Ele precisava ser longo, pois, Tati Bernardi se doeu ao escrevê-lo por mim.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Ruge pra mim, feito felino. Me fere com a verdade de querer-me na medida do possível.

Eu escorreguei na nudez dele
E meus pés descalços temeram esmagar qualquer chance
De libertação
Que o tatear captasse 
dentro daquele quarto escuro
Dizíamos coisas disformes
Porque não nos importávamos com mais nada
Gonzaguinha poderia rasgar sua voz no rádio
Que continuaríamos inteiros
Dissimulando disfarçando escondendo
Sem revelar jamais
Que poderíamos sim
Caber numa conta de mais
Descendo ladeiras
Vislumbrando um céu de chumbo
Escrevendo sobre a solidão embaixo do viaduto
Em qualquer circunstância
Eu não sei me fazer interessante
para quem me interessa
Quem me despe não me olha
Quem me olha não quer me tocar
Queria que ele soubesse ficar
E fizesse uma planta brotar na minha face
Tão selvagem e impalpável
Áspera e cortante
Só para retratar o contrário 
do que sou por dentro
Por dentro eu sou azul
Ele saberia disso se ficasse.


























Arte: Agnes Cecile

sábado, 14 de janeiro de 2017

Precipita tua fome e reconheça-me como Senhora D. Derrelição. Obscena.

Lembro
Enquanto assisto televisão
Saio para passear
Ou me vejo à toa

Lembro
Do cheiro
Da boca
Das mãos

Do teu peso sobre mim
E da leveza que de mim sai
E paira sobre o ar

Tu pareces
não valer muita coisa
Talvez caiba
no meu orçamento

Diz não ser o homem
que eu penso
Mas eu penso em tantas coisas

Meu interesse se alastra
A repulsa
por essa causalidade também
Meu corpo te quer
Porém, eu cansei de ser
teu subterfúgio

As artimanhas
para me emaranhar nesse desejo
São tão vis quanto deleitosas

Tu sabes como eu gosto
Eu sou mera aprendiz

Me deixa queimar
dentro dessa fixação inflamável
E lembre do meu nome
em meio às chamas

Me chama.


Título: Referência a Hilda Hilst