Enquanto lavo a louça me pergunto se você pensa Eu penso muito Sua mão na minha perna no caminho da sua casa Você cantando alto no carro E sorrindo como quem sabia que podia dilacerar minha pretensão Os meses correram e eu te vi parado na faixa de pedestre com outra mulher no carro Talvez com a mão acariciando as pernas dela E é tudo tão fugaz Como se nós não tivéssemos acontecido E você não tivesse repetido dezenas de vezes que Gosta do meu gosto Gosta do meu cheiro Gosta do meu jeito Pois sempre haverá outros gostos e cheiros e jeitos No outubro passado você me enviava mensagens todas as noites dizendo me querer Ansiando minha presença Como se somente eu fosse capaz de preenchê-lo No último março você sentia a minha falta Falta dos filmes franceses que lhe apresentei Falta de tudo Mas dissipamo-nos entre palavras Você só me queria até onde pudesse vulgarizar todos os atos e sensações Você soube dos outros homens que me feriram Que me congelaram no tempo Você me convidou para conhecer o fogo Quando me aqueceu Você assoprou o fósforo.
Você me causou danos irreparáveis E te ver naquele breu noite passada Desenraizou sensações profundas em mim Enquanto Humberto Gessinger cantava Que aquela noite, aquela noite estava fria Tudo em mim doía Eu gostei tanto de você, Dionísio Para terminar assim Me faltando luz, palavras e sossego Você me olhou como quem olha e se arrepende um nanossegundo depois Eu te acompanhei de fita Vi você me ver fingindo que não via Vi você destilar encantamentos em outros ouvidos Vi uma mão pousar na sua perna Outra mão acariciando seu ombro Vi você tentando ser grande Mesmo sendo tão parco e diminuto Vi as luzes daquele bar refletindo sua beleza ascendente Me vi caindo Por que você não vê? Título: Piano bar - Engenheiros do Hawaii
Depois que eu comecei a estudar Letras Me sinto menos poética Atrevo-me a dizer que meu eu lírico Saiu para passear e perdeu o rumo de casa São tantas teorias querendo desmascarar a utopia Os versos decassílabos São chatíssimos quando paramos para contar E os docentes tão insensíveis Se lerem isso Bem capaz de eu perder 1,5 só pela minha ousadia De achar que escrevo alguma coisa Eu perdi a paz Eu perdi você Foi por causa dos meus lábios desidratados? Ou foi por que você não suportaria se preocupar com outro umbigo além do seu? Você me perdeu Por que eu sou fantasiosa demais? Ou por que quis me perder? Noite passada eu chorei Encontrei um livro rasgado Depois chorei porque meu coração está do mesmo estado Eu finjo todos os dias desde aquele dia Digo que não foi nada além de uma expectativa boba Mas você tripudiou lançou seu silêncio com tanto desdém Eu quero esquecer Parar de escrever sobre isso Eu quero poder caminhar na rua da sua casa Sem lembrar que lá é a sua morada Eu quero fazer aniversário sem saber que você também faz no mesmo dia Eu quero fechar os olhos e apagar tudo Eu quero não desviar assuntos e poemas em direção a você.
Segure minha mão Vamos sentar naqueles degraus gelados Você não consegue parar de falar E eu vou me apaixonar de novo Suas pernas tatuadas emboscaram minhas pernas pálidas Os mesmos olhos de azeviche outra vez Meu encantamento noturno Continuamos a percorrer essas ruas largas Não larga a minha mão Fale sobre Montessori Sobre a minha poesia Fale sobre o quanto as árvores parecem mais bonitas nas estradas quando você vem me ver Quero te levar na feira Comprar tâmaras de manhãzinha na praça central Me beija Deixa-me dizer a eles que vou te casar comigo Meu menino Meu João.
Tu és a minha paixão favorita Te escrevi versos silenciosos e gritantes Durante esses dois anos Te envolvi na minha esperança de reciprocidade Te banhei na mitologia Te chamei de Dionísio E hoje tu nem lembras o meu nome A fachada da loja que tanto citei nos meus poemas Hoje é de outra cor E não me dói mais Mas é tudo tão estranho Eu acho que vou te querer toda minha vida Quando estiver gostando de alguém E não mais escrever E todas as vezes que um cara me magoar Vou continuar lembrando de ti Como alguém que soube me olhar de verdade E me despiu dentro daquele bar abarrotado de gente Somente por me reconhecer tecelã mulher poesia Tu me tocaste E ninguém vai saber o quão inteira fui na ilusão que eu sentia Teus olhos ainda são os mais lindos dessa cidade Feliz aniversário, meu bem.
Eu deveria ter pedido para você me escutar naquela noite, sentado ao meu lado na cama. Me escutar como se eu fosse uma pessoa que você acabara de conhecer no supermercado, igualzinho naqueles clichês americanos. Aonde um dos personagens precisa discorrer algo seríssimo, senão explode. Precisava que você me escutasse dizer que eu queria que alguém gostasse de mim sem medo. Sem medo do piegas, sem medo de lembrar de mim no meio da tarde e me enviar uma mensagem, 'lembrei de você e você deve saber'. Eu gostaria de ter dito que mereço mais do que compartilhar risos pós sexo e que quero gostar de alguém sem medo de ser ridícula, eu devia mesmo ter te dito todas essas coisas e ter te tirado para amigo depois de todas as transas fervorosas, porque no fundo eu sabia, você não queria e não podia me dar mais que isso. Mais que suores dissolvidos num disfarce de 'nos vemos durante a semana', sabendo que não nos veríamos não. Você não sabia abreviar a sua vontade de mim me dizendo bom dia, isso não cabe nessa era de sentimentos líquidos, como previu Bauman. E é uma pena. A dúvida do se azucrina a minha cabeça, talvez, se eu tivesse te dito tudo, eu não teria te tirado desse modo brusco da minha vida. A máxima de 'quem se importa procura' é verídica. Eu te tirei da minha vida e você se distraiu demais para me procurar. Sim, no fundo eu sabia.
Queria não me magoar tentando te agredir Beijando outras bocas enquanto você lava os seus lençóis para me esquecer depressa Você não me diz mais nada Eu também não digo Ontem li uma frase Não sei de quem é Ínfima Ela me lembrou do Cansaço de todas as hipóteses Eu só quero me apaixonar por alguém que faça tocar Cyndi Lauper dentro do meu coração. Título: Fábio Chap