Conto baseado em um antigo poema autoral Verdes, os olhos de pupilas dilatadas a encarando do balcão no canto do bar. E os olhos dela, tristes. Mas ele naquela mísera luz não teve olhos para ver. O deslumbramento e o álcool anuviam tudo, não é mesmo? Torcia ela para que ele fosse mais do que um adorno do ambiente. Almejava ele que ela fosse o troféu da noite. Entre olhares minuciosos e gestos impalpáveis, saíram os dois pisando em cacos de vidros na calçada, como quem pisa em estrelas. No caminho até o ponto de táxi, ela sentia os olhares dos bêbados e das putas da cidade sobre os dois juntos, inacreditando na exatidão daquela imagem. Ela possuinte de cabelos negros, tão pálida e desarticulada, com um dos homens mais bonitos da cidade. O mais bonito para ela. E considerava isso há anos. Quebrando o silêncio após escutar a torneira jorrando água, ele disse que gosta tanto de ver a chaleira chiar. Como se com ele conversasse, contando-lhe urgências... Ele desencaminha o assunto para objetos externos, ganhando o tempo dela, que prepara o seu café, tentando lhe devolver o foco. Precisava destilar o álcool que bebera em algo forte, porém sereno. Ele a olha como quem quer tudo, mas ela só quer umas poucas palavras. Já passa das três da madrugada e ele agora troca o hálito do ar com o seu cigarro caro. Pergunta se ela tem por hábito recolher estranhos em bares lotados e preparar-lhes um café no cinza das horas. Ela disse que já o conhecia, de alguma avenida, daquela loja de tintas, quem sabe, talvez de outra louca vida. Ele proferiu que louca é ela, e riram. Riram como quem pisa mesmo em cacos de vidros. Falou que o café estava amargo e pediu papel e caneta, colocou um bilhete em suas mãos e saiu sem dizer nada. Ela num espasmo leu "o demônio que habita em ti, já morou em mim'', uma cena quase que baudelairiana. A partir daquele momento, ela poderia persegui-lo em todos os bares mais ínfimos, para vê-lo, corrompendo outras moças estonteadas, mas apreciadora de um bom drama. Escreveu o nome dele na sola do seu sapato favorito e voltou para o bar. Essa noite ela vai dançar até ele se apagar dela.
Eu o vejo dormindo ao meu lado e não consigo tirar as mãos de você O cabelo macio O shampoo cheiroso O montão de pintinhas nas suas costas Nossos dedos entrelaçados enquanto assistimos tv A sua risada Tudo Tudo que vem de você me pede um pouco mais de atenção Até as batidas do seu coração acelerado após o sexo eu pude sentir com mais exatidão ontem Como se tudo virasse poesia na minha cabeça Nossas bobagens Você me apertando Eu lhe fazendo cócegas A minha birra temporária Você dizendo gostar de mim e eu querendo saber como Você diz que gosta do seu jeito Eu não entendo Mas volto sempre para a sua cama E me despeço de mim.
Como se fosse possível Como se fosse verdade Nossas pernas enroscadas Num ameno inverno de agosto Enquanto viramos brasa Você me querendo até onde pode alcançar Eu lhe querendo até me cansar Seu cheiro acasalando com o meu As trilhas das minhas unhas nas suas costas ornamentando os sinais da sua pele Delicadamente sinalizando que eu caí de novo Tropecei no seu discurso de homem ambicioso Dei de cara com a sua cara Sua respiração embalando a minha Enquanto eu me tornava sua No único momento que lhe sinto meu Suas mãos buscando lugares secretos Minha boca ansiando pelo gosto predileto O sal da sua pele Sua essência de homem confundindo-se com o aroma do seu perfume Eu sou louca por você Mas você não releva os meus dramas E revela ser tão frio quando não está sob meus dedos Anunciando que sua precisão de mim é somente epidérmica Sendo que eu abri minhas pernas e minha vida para você, que não me lê Que não se deixa ficar e não me deixa ir Você que me toca e me assopra como quem beija uma flauta doce Me enleando Me tomando Me desejando com força Como se você um dia me olhasse E enxergasse além da menina que ri e bebe e rola com você na cama.
Enquanto lavo a louça me pergunto se você pensa Eu penso muito Sua mão na minha perna no caminho da sua casa Você cantando alto no carro E sorrindo como quem sabia que podia dilacerar minha pretensão Os meses correram e eu te vi parado na faixa de pedestre com outra mulher no carro Talvez com a mão acariciando as pernas dela E é tudo tão fugaz Como se nós não tivéssemos acontecido E você não tivesse repetido dezenas de vezes que Gosta do meu gosto Gosta do meu cheiro Gosta do meu jeito Pois sempre haverá outros gostos e cheiros e jeitos No outubro passado você me enviava mensagens todas as noites dizendo me querer Ansiando minha presença Como se somente eu fosse capaz de preenchê-lo No último março você sentia a minha falta Falta dos filmes franceses que lhe apresentei Falta de tudo Mas dissipamo-nos entre palavras Você só me queria até onde pudesse vulgarizar todos os atos e sensações Você soube dos outros homens que me feriram Que me congelaram no tempo Você me convidou para conhecer o fogo Quando me aqueceu Você assoprou o fósforo.
Você me causou danos irreparáveis E te ver naquele breu noite passada Desenraizou sensações profundas em mim Enquanto Humberto Gessinger cantava Que aquela noite, aquela noite estava fria Tudo em mim doía Eu gostei tanto de você, Dionísio Para terminar assim Me faltando luz, palavras e sossego Você me olhou como quem olha e se arrepende um nanossegundo depois Eu te acompanhei de fita Vi você me ver fingindo que não via Vi você destilar encantamentos em outros ouvidos Vi uma mão pousar na sua perna Outra mão acariciando seu ombro Vi você tentando ser grande Mesmo sendo tão parco e diminuto Vi as luzes daquele bar refletindo sua beleza ascendente Me vi caindo Por que você não vê? Título: Piano bar - Engenheiros do Hawaii
Depois que eu comecei a estudar Letras Me sinto menos poética Atrevo-me a dizer que meu eu lírico Saiu para passear e perdeu o rumo de casa São tantas teorias querendo desmascarar a utopia Os versos decassílabos São chatíssimos quando paramos para contar E os docentes tão insensíveis Se lerem isso Bem capaz de eu perder 1,5 só pela minha ousadia De achar que escrevo alguma coisa Eu perdi a paz Eu perdi você Foi por causa dos meus lábios desidratados? Ou foi por que você não suportaria se preocupar com outro umbigo além do seu? Você me perdeu Por que eu sou fantasiosa demais? Ou por que quis me perder? Noite passada eu chorei Encontrei um livro rasgado Depois chorei porque meu coração está do mesmo estado Eu finjo todos os dias desde aquele dia Digo que não foi nada além de uma expectativa boba Mas você tripudiou lançou seu silêncio com tanto desdém Eu quero esquecer Parar de escrever sobre isso Eu quero poder caminhar na rua da sua casa Sem lembrar que lá é a sua morada Eu quero fazer aniversário sem saber que você também faz no mesmo dia Eu quero fechar os olhos e apagar tudo Eu quero não desviar assuntos e poemas em direção a você.
Segure minha mão Vamos sentar naqueles degraus gelados Você não consegue parar de falar E eu vou me apaixonar de novo Suas pernas tatuadas emboscaram minhas pernas pálidas Os mesmos olhos de azeviche outra vez Meu encantamento noturno Continuamos a percorrer essas ruas largas Não larga a minha mão Fale sobre Montessori Sobre a minha poesia Fale sobre o quanto as árvores parecem mais bonitas nas estradas quando você vem me ver Quero te levar na feira Comprar tâmaras de manhãzinha na praça central Me beija Deixa-me dizer a eles que vou te casar comigo Meu menino Meu João.