quinta-feira, 14 de abril de 2016

Hahahah

                                                   Mas quis a sina que seu peito 
                                                                    Não batesse por mim nem um minuto, 
                                                                   E que ele fosse leviano e belo 
                                                                  Como a leve fumaça de um charuto!
                                                                                                                  Álvares de Azevedo

            


Eu sou capaz de cometer qualquer baixeza
Mas me agride muito, o conflito 
entre apodrecer por pouco
e enlouquecer por nada

As pessoas falam coisas maldosas sobre você
Não sei se as agradeço ou se
as mando para o inferno
No mesmo inferno 
que você não encontrou Dionísio

Essa semana lhe vi
e foi tão perturbador e necessário
Suas expressões 
-mesmo que longínquas-
desesperaram o meu dia

Eu atravessei aquela rua
com receio 
de derrubar meu copo descartável de café
E construir novas esperanças

Eu atravessei aquela rua
com receio de que você me olhasse de volta
E não enxergasse nada

Eu não estou sabendo atravessar
essa fase
Eu não sei nem atravessar a rua 
numa faixa de pedestre
E acho que você sabe disso

Estou presa
na garganta do Diabo
Ele vai me cuspir a qualquer momento
Mas quero que ele me engula
Com a dose mais forte
Que me empurre lá para baixo
Pois, preciso encontrar Dionísio 

Porque no mais profundo dessa insanidade
ele não se encontra em mim.

sábado, 9 de abril de 2016

Todos temos uma Bettie Page

Eu estou bebendo muito
e correndo tanto, 
de qualquer coisa que possa me destruir 
ou me inspirar 
por dois ou três poemas

Me sinto como um rapaz 
vivendo nos anos 50
com um pôster da Bettie Page 
atrás da porta do quarto
Desejando o que nunca vai ter

Não sei se corto o cabelo 
ou mudo o meu trajeto rotineiro

Seus olhos de pesquisa 
jamais compreenderão 
minhas perplexidades

Se eu escrevo muito 
é porque não vivo nada
Se eu escrevo pouco 
acho que não sei viver direito

Já disse que tenho bebido muito? 
Tenho falado coisas apavorantes, 
me declarando 
mais do que o Ministério da Saúde adverte

A tenuidade 
entre o bom senso e a loucura 
divide minha devoção

Você sabe de tudo
E saber que você sabe
vai matando aos poucos o meu lirismo

E eu sei
que a solidão vai nos engolir, meu bem.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Sobre a cegueira opcional

Da janela
do sétimo andar
do consultório
do meu oftalmologista
eu vejo a vida
acontecendo]
Com essa vista
é possível enxergar
tudo direito.

domingo, 3 de abril de 2016

De andar em andar, passo meus pensamentos em fodas abstratas. A água acaba. Vou-me. Mais uma noite. Neste bar. Paquerando minhas lembranças. Sonho vai. Sonho vem. E me pego sozinha. Obrigada!

Toda vez que beijo
um cara mais interessante
do que você
Eu tento me lembrar o porquê 
de ter lhe criado um personagem
Você é tão insensível
Me faz lembrar 
do que Manoel de Barros já dissera
Que a poesia
não é algo que se possa
incorporar com os olhos sujos
de realidade
Após a cegueira inicial,
hoje você só tem sujado meus olhos
Você é mesmo tudo aquilo que eu supunha 
E eu me tornei perecível por isso 
Exausta de encanto
Por algo inevitavelmente precoce

Nunca mais quero vê-lo



Título: Do conto Cheiro de erva, Emir Rossoni 

quinta-feira, 31 de março de 2016

Te faço nascer de novo quando vejo que não mais sei viver sem excessos

Hoje queria vê-lo
Ao menos de longe
Somente para ter o que escrever
Você não parece
ser de carne e osso
Você parece nunca ter chorado na vida
Seu olhar ponderoso
Parece aniquilar todos os olhos pintados que lhe enxergam
Essa inconstância entre o ser
e o parecer
É o que sustenta a poesia
Hoje eu quero beber
E parafrasear Hilst
Enquanto agradeço
Pela graça e alívio de não te alcançar
Seu ego
rodopia no céu
Quando lê essas coisas minhas
E eu me entristeço por isso.

sábado, 26 de março de 2016

Resquício de Dionísio

Posso escrever sobre você
até quando me oferecer 
papel para isso, Dionísio

Se aparecer outros personagens
Não julgue-me
Eu só escrevo
para quem me dispõe combustível

Você me mostra 
todas as faces inexpressivas 
desse desprezo

Sua teatralidade animalesca 
caçoa do meu coração poeta

E a nitidez do meu desconforto
atua quando lhe vejo feito cachorro
Atrás daquelas mulheres frívolas 
durante a madrugada toda

Você já foi mais envolvente
E mais inteligente
Acho que as Mulheres de Charles
Lhe inspiraram de maneira errônea

Você quer estender sua estatística semanal

Charles queria inspiração
Queria mais
mais do que as putas
mais do que as bêbadas
mais do que as loucas
mais do que as burras que chupam bem

E você?
Você parece não saber o que quer

E eu não quero rir até chorar
quando vê-lo
no mesmo bar
se aproximando
das mesmas putasbêbadasloucas
que só lhe querem 
por causa do seu rosto bonito

Eu posso ser a garota calma e limpa
num vestido de algodão
Mas não importa em qual parte 
do planeta você esteja

Você quer que as putas continuem lhe encontrando. 

02/02/2016

sexta-feira, 11 de março de 2016

Bastasse qualquer gesto, e o precipício não me conheceria

Me abrigo nos livros que não li
Brigo pelas estórias que não pude viver
Eu me obrigo a entender que doses cavalares
de poesia 
Jamais abrasarão corações gelados
Minto para mim mesma
Finjo que compreendo
E logo estou escrevendo cartas
para quem nunca dirá nada

Eu
tal como,
Lispector
Só posso dizer que

Em mim mesma eu vi como é o inferno.