Mas quis a sina que seu peito
Não batesse por mim nem um minuto,
E que ele fosse leviano e belo
Como a leve fumaça de um charuto!
Álvares de Azevedo
Eu sou capaz de cometer qualquer baixeza
Mas me agride muito, o conflito
entre apodrecer por pouco
e enlouquecer por nada
As pessoas falam coisas maldosas sobre você
Não sei se as agradeço ou se
as mando para o inferno
No mesmo inferno
que você não encontrou Dionísio
Essa semana lhe vi
e foi tão perturbador e necessário
Suas expressões
-mesmo que longínquas-
desesperaram o meu dia
Eu atravessei aquela rua
com receio
de derrubar meu copo descartável de café
E construir novas esperanças
Eu atravessei aquela rua
com receio de que você me olhasse de volta
E não enxergasse nada
Eu não estou sabendo atravessar
essa fase
Eu não sei nem atravessar a rua
numa faixa de pedestre
E acho que você sabe disso
Estou presa
na garganta do Diabo
Ele vai me cuspir a qualquer momento
Mas quero que ele me engula
Com a dose mais forte
Que me empurre lá para baixo
Pois, preciso encontrar Dionísio
Porque no mais profundo dessa insanidade
ele não se encontra em mim.

Eu estou bebendo muito
e correndo tanto,
de qualquer coisa que possa me destruir
ou me inspirar
por dois ou três poemas
Me sinto como um rapaz
vivendo nos anos 50
com um pôster da Bettie Page
atrás da porta do quarto
Desejando o que nunca vai ter
Não sei se corto o cabelo
ou mudo o meu trajeto rotineiro
Seus olhos de pesquisa
jamais compreenderão
minhas perplexidades
Se eu escrevo muito
é porque não vivo nada
Se eu escrevo pouco
acho que não sei viver direito
Já disse que tenho bebido muito?
Tenho falado coisas apavorantes,
me declarando
mais do que o Ministério da Saúde adverte
A tenuidade
entre o bom senso e a loucura
divide minha devoção
Você sabe de tudo
E saber que você sabe
vai matando aos poucos o meu lirismo
E eu sei
que a solidão vai nos engolir, meu bem.
Da janela
do sétimo andar
do consultório
do meu oftalmologista
eu vejo a vida
acontecendo]
Com essa vista
é possível enxergar
tudo direito.
Toda vez que beijo
um cara mais interessante
do que você
Eu tento me lembrar o porquê
de ter lhe criado um personagem
Você é tão insensível
Me faz lembrar
do que Manoel de Barros já dissera
Que a poesia
não é algo que se possa
incorporar com os olhos sujos
de realidade
Após a cegueira inicial,
hoje você só tem sujado meus olhos
Você é mesmo tudo aquilo que eu supunha
E eu me tornei perecível por isso
Exausta de encanto
Por algo inevitavelmente precoce
Nunca mais quero vê-lo
Título: Do conto Cheiro de erva, Emir Rossoni
Hoje queria vê-lo
Ao menos de longe
Somente para ter o que escrever
Você não parece
ser de carne e osso
Você parece nunca ter chorado na vida
Seu olhar ponderoso
Parece aniquilar todos os olhos pintados que lhe enxergam
Essa inconstância entre o ser
e o parecer
É o que sustenta a poesia
Hoje eu quero beber
E parafrasear Hilst
Enquanto agradeço
Pela graça e alívio de não te alcançar
Seu ego
rodopia no céu
Quando lê essas coisas minhas
E eu me entristeço por isso.
Posso escrever sobre você
até quando me oferecer
papel para isso, Dionísio
Se aparecer outros personagens
Não julgue-me
Eu só escrevo
para quem me dispõe combustível
Você me mostra
todas as faces inexpressivas
desse desprezo
Sua teatralidade animalesca
caçoa do meu coração poeta
E a nitidez do meu desconforto
atua quando lhe vejo feito cachorro
Atrás daquelas mulheres frívolas
durante a madrugada toda
Você já foi mais envolvente
E mais inteligente
Acho que as Mulheres de Charles
Lhe inspiraram de maneira errônea
Você quer estender sua estatística semanal
Charles queria inspiração
Queria mais
mais do que as putas
mais do que as bêbadas
mais do que as loucas
mais do que as burras que chupam bem
E você?
Você parece não saber o que quer
E eu não quero rir até chorar
quando vê-lo
no mesmo bar
se aproximando
das mesmas putasbêbadasloucas
que só lhe querem
por causa do seu rosto bonito
Eu posso ser a garota calma e limpa
num vestido de algodão
Mas não importa em qual parte
do planeta você esteja
Você quer que as putas continuem lhe encontrando.
02/02/2016
Me abrigo nos livros que não li
Brigo pelas estórias que não pude viver
Eu me obrigo a entender que doses cavalares
de poesia
Jamais abrasarão corações gelados
Minto para mim mesma
Finjo que compreendo
E logo estou escrevendo cartas
para quem nunca dirá nada
Eu
tal como,
Lispector
Só posso dizer que
Em mim mesma eu vi como é o inferno.