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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

                                                             os cabelos dela são ruivos 
                                                      como relâmpagos vindos do paraíso,
                                                      eu disse.
                                                      tire ela da cabeça, ele disse.
                                                       
 
                                                                             bukowski



escutar a sua voz numa ligação
pela primeira vez em anos
só para confirmar que não temos ligação alguma
mesmo que você não saiba me deixar em paz
eu não sou a sua garota preferida
você diz me amar
mas estou longe 
e assim é mais fácil lidar
com as suas mentiras açucaradas 
mas nem você acredita 
você adora viver assim
sempre disposto a conquistar
e a me magoar
fala que nunca teve a intenção
tenta me consolar
dizendo que sou boa em coisas que ela não é
[e que também gostou muito de mim]
eu jamais me senti especial
você nunca se conformou comigo
nem com ela
ela não quer vê-lo nem pintado de ouro
eu quero vê-lo
cada vez mais derrotado
tentando usurpar corpos bonitos
danificando boas almas 
e indo dormir só
você ainda me dói
de um jeito absurdo 
é o combustível que o acaso joga em mim
pra eu viver sempre queimando
diuturnamente alimento esse fogo
só pra tentar te incendiar comigo. 

 

@a.nalunalu

domingo, 4 de outubro de 2020

vai doer quando não estiver distraído

é como uma música
eu sempre retrocedo para a minha parte favorita
quando percebo que vai acabar
escuto 
escuto 
escuto
minha mente 
mentindo mais uma vez 
que nós ficaremos para sempre
na memória um do outro
e quando você me ver de novo por aí
sentirá o mesmo frio na barriga
como da última vez
pois não importa o que façamos
essa nossa linha emaranhada 
nunca arrebenta
os anos
a distância
a vontade do nunca mais
o desejo do só mais uma vez
eu acho que você me ama
só que nunca quer pensar nisso
mas sei que ainda pensa em mim
pois eu não paro de sonhar com você
o destino ri com deboche
dessa sua ânsia de querer apresentar alguém para os pais
enquanto a ideia de casamento e filhos
lhe desespera até a alma
e ele também ri com com escárnio
de mim
que não sei
não sei trocar de música
não sei ser tocada por outro homem
sem lembrar das suas mãos
essa história não acabou só porque
eu rezei noites a fio para esquecer
você vai padecer estando com quem for
quando me ver com meus cabelos ruivos flamejando
no sol escaldante no final da tarde
nesse dia entenderá bukowski:
                                                     [o velho que você lê por minha causa]
amor
é para os que 
aguentam a sobrecarga psíquica. 

sexta-feira, 22 de maio de 2020

O que você é enfim?

Buscando uma beleza vulgar
era assim que vivíamos
e era assim minha precisão de ti
tua necessidade de mim
nunca haverá algo tão destrutivo quanto
nem edificante 
coloquei cícero para ouvirmos 
em uma daquelas madrugadas
em que a apreciação era mútua
se o dia raiar pra gente se inventar
de novo
quem sabe um dia a gente se encontre
de novo
e finalmente se reconheça.



sexta-feira, 24 de abril de 2020

Love on the brain - Rihanna

você gostava da alvura da minha pele
eu gostava da temperatura da sua pele
se você voltasse agora
eu voltaria também
viveria esse deleite no olho do furacão
eu te lembro
passeando pelo meu corpo
e o orgasmo mental consegue ser ainda melhor
você pode ser melhor para mim?
não sei o que fazer. 

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Amor que não foi vivido totalmente volta

eu amei as suas mãos
os dedos compridos
as unhas bem feitas
amei o dorso alvo
a quentura da pele
amei o cheiro extasiante 
amava te ver pronto pra mim
duro
lascivo
mas sempre numa delicadeza imutável
talvez eu tenha amado
outros fragmentos da sua existência
mas nunca falarei disso
para não pisotear mais esse querer
de todos que um dia me olharam
o seu olhar eu nunca ousei entender
pode ser que ninguém nunca mais
me olhe desse jeito
mas poesias foram escritas 
no suor da nossa entrega
como se o pertencimento pudesse existir
através do tempo
se eu te amei
amei sem saber
mas você sabia.

Título: Carpinejar
Arte: Tina Maria Helena


domingo, 1 de dezembro de 2019

Não tenho mais espaço para ti. Nem no meu coração. Nem no meu cérebro.

você me quebrou pela última vez
e eu nunca esquecerei
como não esqueci da música que tocava 
quando você me beijou pela primeira vez
acontece que eu permiti você me magoar 
vezes demais
isso nunca mais acontecerá
eu chorei até sufocar
eu chorei até ''crer afoitamente que o que é, é''
e agradeço a van gogh pelo entendimento
você nunca gostou de mim
mentia olhando nos meus olhos
mentia com a minha cabeça repousando no seu peito
mentia entre as minhas pernas
e mentiu no outro lado da tela 
estando mais de mil quilômetros de distância
quando tudo o que você me fez voltar para te encontrar
espero que aceite
e compreenda 
que nada supre
a sensação de ser límpido 
mesmo na fugacidade do gozo
você me quebrou 
mas homens como você 
criam sem querer
mulheres fortes
nas horas cinzas
você lembrará tudo de nós
e o porquê de nada acontecer na sua vida
mesmo pegando em várias mãos no meio da praça
e exibindo mulheres bonitas para esconder sua feiura
indo do êxtase à náusea
e recorrendo a livros de autoajuda 
sem saber que nem mil livros lhe salvarão da sua covardia
porque você sempre será
um esboço de qualquer coisa
qualquer coisa que não evoluiu no meio do caminho
qualquer coisa como uma pedra no caminho do outro
qualquer coisa como a ruína de quem é de verdade
você nunca mais vai acontecer nos meus dias.

Título: Do livro "Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa, 1959."



sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Não pode haver em mim a parte que te falta

com todo o drama que sou capaz de criar
e sou capaz de muito
poderia tocar it must have been love agora
enquanto eu me desvaneço na minha última obsessão
pois gosto de sofrer com a classe oitentista 
acho que também estou boiando igual uma tola
nessa vida
nessa história
nesse casinho que perdura três primaveras 
você acha que nos achamos 
e que isso não acontece duas vezes
eu acho que isso não é o suficiente
já que você nunca banca o que sente
são tantos medos 
constituindo esse homem pequeno que você é
eu sinto pena
meu coração - que você diz ser lindo - se apodrenta assim
te escrevi tudo que dói 
desde a noite que percebi que não seria fácil sair disso
ainda não saí
não saímos 
não são apenas os mendigos que não me deixam dormir
enquanto passeiam em frente ao meu prédio pelas madrugadas
a verdade é que a rua é deles
o medo é seu
e o desgosto é meu
eu concordo, você é mesmo pouco pra mim
e você ter gostado muito de mim 
[mas do seu jeito]
me fere de modos impronunciáveis
porque tudo que vem de você é homeopático
dos gestos até as palavras.

Outubro/2019 

Título: @atrumana.setra

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Um corpo onde a solidão fosse impossível

remexendo em casa de marimbondo 
é o que eu faço
quando lhe chamo em pensamento
e você vem
esse caso extrapolou a normalidade
beirando os trezentos e sessenta e cinco dias 
que não uso o seu corpo
e mesmo assim não nos deixamos em paz
como se as tréguas dessa batalha apenas servisse
para nos lembrar de como ardíamos juntos com esplendor
eu sou louca por você
e sinto que você é louco por mim
mas você nunca dirá nada
nada que não seja para me magoar.

Título: Eugénio de Andrade, no livro "Antologia Breve".

22/07/2019

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Eu quero o conto de fadas

Sento na cama
no escuro do quarto
não consigo respirar direito
eu apertei meu corpo contra o seu
sob esse lençol com flores azuis
e você acordou comigo
rebatizando o domingo 
você não vem
eu não vou
você nunca esteve lá para mim
nem aqui 
ninguém jamais viu
você segurar a minha mão
eu não posso voltar
pois os cacos de mim
não conhecem a direção.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Para ler escutando The Cranberries - Linger

todas as coisas que vivemos 
eu já escrevi
não faltou tempo
faltou vontade
agora eu tenho que revirar minha mente
em busca de detalhes seus
que não morrem em dias quentes
o clichê de gostar tanto pra tão pouco
a noite que você foi me buscar na faculdade
eu quis tanto que se repetisse
como se fosse natural
como se as minhas pernas fossem
o lugar favorito das suas mãos enquanto você dirige
mas sempre existiu outras pernas
as pessoas me alertaram
sua baixeza era evidente
poesia alguma o salvaria
mas essa aura me arrastava até a sua porta
toda vez que eu precisei de paixão
hoje você é um prurido na minha pele
me faz tão mal
sempre volta a me perturbar.


Arte: Tina Maria Elena





quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

A esperança é uma droga alucinógena.

por tanto tempo 
esperei um gesto
algo que adiasse 
a degradação
se a minha existência
lhe tocasse
se a minha presença
no outro lado da rua
lhe tirasse o sono à noite
se tudo fosse diferente
essa história não seria minha
acho que já escrevi 
um poema assim
mas nunca doeu assim
a dor se aperfeiçoa
não é mesmo?
e eu estou sempre
me repetindo
mas bastaria um gesto seu
para cessar a corrosão.

Título: Rubem Alves

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

O amor que não dá certo sempre está por perto.

   Aquele ar saudosista está pairando por aqui, agora consigo notar as rachaduras dos velhos sobrados da avenida mais movimentada, a sensação é confusa. Mesmo assim, não pertenço a esse lugar. Mesmo se você tivesse me abraçado dentro do meu bar preferido, mesmo se você gostasse de mim... Eu teria que ir embora. Mas ao menos iria sabendo que morei no seu peito. Hoje lembrei da noite que limpei as lentes dos seus óculos com o lenço dos meus, e você me olhou com afeto. Sem imaginar que eu poderia fazer muito mais se você deixasse. Na verdade nunca irei esquecer de todas as pequenezas que constituíram os nossos momentos, mesmo que logo ali na frente você esqueça o meu nome. Até esse minuto presente posso dizer que ninguém me dilacerou dessa maneira, mas o meu coração partido eu sempre colei com poesia. E será sempre desse jeito. Mesmo que o seu jeito me assombre e me rompa em  diminutas partículas de açúcar. Você se desfez tanto de mim, não consegui escrever durante esses três meses, eu precisei desse tempo para sentir isso, sentir meu corpo se desfragmentando naquele evento abarrotado de gente onde outras mãos seguravam as suas mãos no centro da cidade, para todos verem. É compreensível a dor. Meus pés na água fria de Copacabana não esfriou a sua imagem na minha cabeça. Seu nome no meu celular após tudo isso, sua precisão epidérmica de mim espezinha minha crença em grandes pertencimentos. Você me procurou só para comprovar que essa minha paixão é mais elevada que o morro do Corcovado. Eu vou ir embora e você nem sabe, se soubesse não se afligiria pois seria desimportante não me ver nunca mais. Preciso ir, sobretudo para me conhecer e me amar. Para nunca mais gostar de quem me esconde, de quem diz que não pode me ver mais vezes, de quem numa noite me queima no colchão e me esquece no outro dia. Vou ir embora porque nunca mais quero sentir isso.


Título: Cacaso, no livro "Lero-lero".


sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Eu me curvo para essa primavera onírica

   Não haveria essa angústia no peito, pois você me enviaria uma mensagem no final da tarde dizendo que o dia foi corrido mas que mesmo assim pensou em mim. Nos veríamos amanhã, você me buscaria com uma música alta no carro e eu me sentiria tão aliviada por poder segurar sua mão enquanto você dirige. Vamos tomar sorvete no calçadão? Eu sempre escolho doce de leite com ameixa, você chocolate. Você nunca liga por eu terminar o meu por último, até derreter e virar nas pernas. Você acha graça. Eu acho graça de viver assim sabendo que você é por mim. Você me passa o controle remoto, me deixa escolher o filme todas as vezes e depois ri, diz que sempre escolho um filme louco. Toda vez que você sai da cama, me dá um beijo no braço. Eu floresço por dentro. Você dorme, eu contorno as sardas das suas costas. Não consigo dormir, não quero estragar esse sonho. Nesse sonho você sabe pedir desculpa, e é sempre delicado. Nunca piegas. Nesse sonho você fala que eu sou um achado. Você é o melhor que já me tocou. Nossa vulgaridade é sempre poética, você me come como ninguém. Na minha cabeça toca Buckley e Fraser no escuro do seu quarto quando te beijo antes de ir embora. As pessoas que passam dentro dos seus carros durante a madrugada e nos avistam na sua sacada sabem, que somos envoltos por essa adoração sagrada, mesmo que obscena. Mordo seus lábios e essa paixão dói em mim, de tão viva. 

Não é real. 
Nada disso aconteceu. 





domingo, 21 de outubro de 2018

Três meses foi ontem

O que eu faço 
com a vontade 
de procurá-lo 
depois de você passar por mim 
na avenida e 
colocar a cabeça para fora do carro 
como se nunca 
tivesse me visto antes?
Pensei em você toda a semana
como se fosse possível 
chamá-lo em pensamento
Você me desespera 
sempre quando penso 
no quão difícil é esquecer
Morro de medo de ir embora 
e enxergar um carro igual ao seu 
e trazê-lo de volta 
em outra avenida
em outra cidade
em outro estado
Eu lembro da saliva quente
das mãos quentes
da forma como um suspiro 
faz sua boca se transformar 
na letra O 
do meu jeito preferido.

Arte: Tina Maria Elena




quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Para ler ouvindo: Arctic Monkeys, Do I Wanna Know? (cover Dua Lipa)

não consigo
eu vejo o teu carro 
em todas as avenidas da cidade
tem sido tão penoso
te busco nos bares
farejo teu cheiro 
em outros pescoços 
as semanas escorrem 
com a minha saudade de ti
fazemos aniversário no mesmo dia
poderíamos dividir o bolo
e dividir a cama até o raiar o sol
nunca vi o teu rosto numa manhã ensolarada
eu nunca serei a tua menina preferida
mas não deixo ninguém me tocar
para não apagar as tuas mãos em mim
como fujo dessa doença?
eu sou a garota para rir na tua cama
não para afagar teu rosto num velório.

domingo, 26 de agosto de 2018

Pousa nos meus lábios o peso da sua degradação

Eu não queria ter beijado mais ninguém 
depois de você]
mas pensar no último beijo 
durante todo o mês foi corrosivo demais
Eu não queria estragar 
a imagem na minha cabeça
do homem por quem tenho paixão
segurando meu rosto 
e me transmitindo borboletas
pela boca
Mas assistir a sua ânsia 
em me afetar na noite passada
me fez beijar outro homem
só para lembrar de algo mais leve
Você adentrou num limite ardiloso 
brincando de 
quem se divertia melhor
quem sorria mais
Em poucas horas 
você me afastou milênios 
e nunca saberá
Não quero lembrar mais de você
Você está me doendo como nunca.


quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Não é nada

   Não importa quanto o tempo passe, eu nunca vou entender como você consegue me deixar ir embora. Toda vez que eu subo as escadas do seu prédio meu coração é ferido à faca. Parece que eu vejo nós dois lá do alto, no seu quarto, na sua cama... Como se não existisse telhado, como se fosse possível eu ver nós dois errando no instante do erro. Você falando vulgaridades no meu ouvido, e eu rindo como se o choro estivesse distante. Eu amo o seu cobertor, amo a sua tv, amo sua mão percorrendo o meu corpo enquanto pouso minha cabeça no seu peito. Amo quando você beija o topo da minha cabeça, como se eu fosse fácil de ser amada. Eu te escuto e não te aprendo. E olho pra você sabendo que o amanhã não existe pra quem vislumbra o outro assim desse jeito. Te falo dos meus planos de mudar de cidade, de escrever um livro e tentar não sentir saudade. Você me fala sobre morarmos juntos só para tripudiar em cima do meu querer. No minuto anterior falou que não pode me ver mais vezes para não se apegar. Só que eu fiquei sabendo que você chegou de mãos dadas no velório do seu avô ano passado. Eu poderia tê-lo conhecido se você não me escondesse do mundo dentro do seu quarto durante esses dois anos, enquanto mente ser uma alma livre. 
   Tenho mesmo que me livrar de você, você me faz sentir uma pessoa medíocre. Larguei os meus amigos no bar para ir vê-lo no meio da noite, você só queria ver o celular, porque flertar com outras mulheres enquanto há uma mulher nua na sua cama lhe faz gozar melhor. Já falei demais, já me expus demais. Coloquei meu coração num prato para você degustar melhor. Por que você me faz perder tempo? Apagar o meu número do seu celular foi meu desespero e alívio maior. Mas eu já decorei o seu. Me vesti em silêncio, a sua inquietação era gritante, perguntou três vezes se eu estava bem, ser monossilábica pelo jeito lhe fere. Sentei na cama, retoquei o batom com a mísera luz da televisão, você observando cada gesto meu. Fui me olhar de corpo inteiro no espelho do seu guarda-roupa e você perguntou como rasguei minha meia-calça... Foi você. Você também rasgou o meu coração, meu bem. Voltei a sentar na cama, apertei as tiras dos meus sapatos, você atravessou o seu lado preferido da cama e veio para perto de mim, olhou nos meus olhos e disse que lhe deixo sem saber o que pensar, sem saber o que fazer. Falei para continuar fazendo o que sempre fez. Nada. 
   Será que é tempo que lhe falta para perceber? Eu falei nos seus ouvidos que você vai se arrepender de me perder. A vida também sabe ser cruel. Eu vou esquecer das sensações primitivas, do desejo, dos arrepios, do fogo mútuo, do quão infinito pareciam os degraus da sua escada enquanto eu descia correndo para tentar fugir disso, e você atrás de mim querendo quebrar o meu silêncio. Eu fui embora da sua casa, de você, de mim, mais uma vez. O taxista se tivesse um lenço me emprestaria, me induziria a chorar naquela hora. Mas até agora o choro está entalado na garganta, a lágrima presa nos olhos. Mais uma vez isso acabou comigo. 


Arte: Tina Maria Elena



domingo, 22 de julho de 2018

Sobre o desalento de gostar assim

eu acho que agora acabou
pela vigésima vez nesse ano
eu pedi tanto para você sumir da minha vida
mas se você acatar
eu adoeço
eu enlouqueço
e apedrejo seu carro
picho a fachada da sua casa
se você sumir 
não sei o que farei desse fim
no último final de semana
te vi naquela festa
fingi a noite inteira que não te conhecia
enquanto você me olhou a noite inteira
sabendo bem a louca que eu sou
bebi sorri dancei 
e você ali
pela primeira vez na vida me percebendo 
depois de tanta coisa dita
e muito silêncio apodrecido
acho que deixar você ir
é me ter de volta.

terça-feira, 10 de julho de 2018

A gente gosta de entrar na merda e sentir o geladinho, até a merda feder.

   Eu quis chorar, então fui procurar paz naquela biblioteca com grandes janelas de vidro e vi a noite se aproximando enquanto as pessoas queriam apenas fugir do frio desse julho triste. Mais triste sou eu. Sábado você me deu um gelo, após ter queimado meu coração na sexta-feira. Eu lembro a cara que você fazia, suspirando enquanto minhas mãos passeavam pelo seu corpo, ficamos grandes demais dentro do seu carro apertado. Depois pela primeira vez em dois anos você me falou sobre outra pessoa, eu tive que escutar suas sentimentalidades com cara de paisagem. Você disse que ela é um achado e que talvez nunca encontre alguém como ela nessa vida. Morri por dentro. Se em dois anos você não percebeu que eu também sou um achado, não será nessa existência. Dez meses sem beijar a sua boca só confirmou a minha vontade da sua boca para o resto dos meus dias. Mas você sempre acaba comigo. Mais tóxico que isso só os ares de Chernobyl. 
   É para mim que você corre quando a vida lhe cansa, apenas eu que não respeito o meu cansaço. Você me faz criar elegias hostis e viver cansada. Fadada à mendicância. Como se escrever meu nome junto a um coração no vidro embaçado fosse prova de afeto bonito. Querendo que eu ficasse lisonjeada e permanecesse na palma da sua mão, enquanto eu desintegro de mim. Meus princípios desviam dos seus, você ri como se fosse doce o sabor do pertencimento. Nós na cidade, constituindo a avenida, dentro da neblina, dentro da garagem, dentro do seu carro, minha cabeça descansando no seu peito, você beijando o meu cabelo e segurando o meu rosto perto do seu. Jamais esquecerei, como não esqueci de cada detalhe seu acontecendo no meu cotidiano nesses dois anos.
   Gostar assim rasgou a minha dignidade, logo eu que tanto lutei para parecer correta, hoje me vejo com seus olhos e então sou pueril. De nada valeu os poetas que li, as dores que escrevi, os filmes que lavaram o meu rosto me confirmando a pacacidade da rotina. De nada valeu todo e último amor que julguei ser o mais infame e mais pesado, se a cada nova atração me vejo cada vez mais por baixo. Você, você de todos foi o que mais fez pouco de mim. Ainda assim, te olhei nos olhos pedindo para me salvar de viver outro gostar mais parco logo ali na frente. 

























Título: Metáfora do Fred Elboni

sábado, 26 de maio de 2018

Eu sou cordão umbilical, pra mim nunca tá bom

Essa autoanulação
De estender as mãos para as migalhas 
que você deixa cair
Quando você me fere a alma 
falando que viver assim
é a sua meta de vida
Usurpando corpos pela madrugada
Pedindo silêncio ao subir as escadas 
pois os seus pais estão dormindo
E eu aqui
pensando em voltar para isso
Só para ter o seu cheiro na minha pele
na rotação das semanas
Ansiando pela minha próxima vez
Como se fosse bondade sua
me querer de novo
mais de uma vez nesse semestre
O frio do fim de maio
conseguiu alcançar o seu coração
E eu nunca te alcançarei
Hoje eu chorei
Por entender que voltar para isso
É morte bestial
Eu sou aquela personagem de Caio
Que esmagou o corpo contra flores não nascidas
Apertou o peito contra a laje fria do cimento
E como Caio, eu acho que

"Você não vai muito além desses príncipes pequenos suas palavras todas não tenho culpa não tenho culpa eram de quem pedia cativa-me eu já não conseguiria bem lento eu não conseguiria eu não sei mais inventar..."


Título: Todo homem, Zeca Veloso
Trecho do Caio Fernando Abreu retirado do conto A quem interessar possa.