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segunda-feira, 1 de abril de 2019

atração herética

outra vez
no nosso bar em comum
você ressurge no ápice da noite
com você, eu sempre vou embora
os olhos mais lindos da cidade
meu dionísio 
meu anjo renegado
você segurou na minha mão
e me beijou por todo o caminho
sentamos naqueles balanços
na pracinha da esquina da sua casa
como se tivéssemos 10 anos outra vez
você é o meu menino 
preso num corpo de 30 anos
minha distração preferida
já me destruiu 
me fez virar pó
mas você eternamente constitui minha vividez
me colorindo com suas tintas
me tocando como quem sabe o valor da poesia
você, meu personagem decadente 
que num fugaz vislumbre
me lembra como é gostar 
de quem a gente tanto odeia.

fev/2019

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Você é o meu Dionísio até essa loucura acabar

não posso lhe ver alheio por aí
pois você gruda na minha mente 
de um jeito muito rude
daquele jeito que não sai com água e sabão 
eu digo pra mim mesma que nem gosto mais de você
mas é só vê-lo numa fila de uma festa
ou atravessando a rua com um copo de cerveja na mão
que meu coração dispara querendo atravessar o quarteirão 
você foi mais um dos meus amores fadados
que depredou a minha comoção 
eu senti tanto nojo, ódio e mágoa de você
que sentir saudade hoje 
é necessário
você beijou minha bochecha no último final de semana
no mesmo bar em que tudo aconteceu há três anos
e eu consegui sentir ternura depois de muito tempo
mesmo que você nem lembre do que tenha feito
[nessa madrugada em questão
ou nas vezes que me feriu nos dias que se passaram]
a repulsa sempre escondeu um pouco da atração
mesmo que eu traia minha sanidade 
te desejando com força
só mais uma vez.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Me beija de novo, quero lembrar amanhã

Eu lhe beijei depois de quase dois anos
E não tocou Creep na minha cabeça
Eu lhe beijei e não consigo lembrar do beijo
Só lembro da frase reles 
que você proferiu nos meus ouvidos
Em meio àquela madrugada escassa
Você só me causa curiosidade agora
Como vive o homem adornado de álcool e 
fama arruinada?
Como posso viver bem 
se lhe coloco sempre na minha vida 
quando a poesia ameaça a me deixar?


















Arte: Agnes Cecile

sábado, 25 de novembro de 2017

Fui te procurar na rua e meti a cabeça no poste

Se você estiver lendo isso
Quero que saiba que lembrar de você
É tão bom quanto salpicar coco ralado numa cobertura de chocolate
do bolo que fiz há pouco
Lembrar de você me remete aos tempos de ingenuidade
Tempo que eu era capaz de entregar uma carta dentro de um bar
Carta que guardei por meses dobrada várias vezes ao meio 
A dor, ela não se resume ao vê-lo beijando várias pessoas 
enquanto tenta ser grande
Nem em olhar as suas fotografias no instagram 
e imaginar que nossos filhos teriam olhos lindos se puxassem a você
Ao menos, se eu quisesse ter filhos
Esse sentimento difundido erroneamente 
que faz eu lembrar você quando alguém me magoa por querer 
Pois você só me magoou porque permiti
E voltar atrás é irremediável 
Pois não sou mais a garota entrando pela primeira vez naquele bar
E você não é Dionísio e seu nome é impublicável 
Você era o homem mais bonito da cidade para mim
Mais bonito do que o pôr do sol que seus olhos capturam 
junto da câmera do seu celular a cada fim de tarde
Mais bonito do que sua luta por justiça em voz daquele estrangeiro
Você era bonito para quem o visse através dos meus olhos
Para quem o lesse na minha poesia
Hoje você é só apenas um rosto saturado 
em meio aos transeuntes 
Conhece músicas boas
Leu bons livros
Está engajado na política 
Torce por um time de futebol
Você é só um babaca bem informado
Com lindos olhos verdes - sempre bom lembrar disso
Gosto de lembrar de você pois ajudou-me 
a aprimorar minha capacidade de construir bons versos
Veja só, construí um castelo para um príncipe pequeno.


Título: A Grandiosa, Adélia Prado. 

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Numa barbárie eles se esbarraram no bar

                                                                                       Conto baseado em um antigo poema autoral


  Verdes, os olhos de pupilas dilatadas a encarando do balcão no canto do bar. E os olhos dela, tristes. Mas ele naquela mísera luz não teve olhos para ver. O deslumbramento e o álcool anuviam tudo, não é mesmo? Torcia ela para que ele fosse mais do que um adorno do ambiente. Almejava ele que ela fosse o troféu da noite. Entre olhares minuciosos e gestos impalpáveis, saíram os dois pisando em cacos de vidros na calçada, como quem pisa em estrelas. No caminho até o ponto de táxi, ela sentia os olhares dos bêbados e das putas da cidade sobre os dois juntos, inacreditando na exatidão daquela imagem. Ela possuinte de cabelos negros, tão pálida e desarticulada, com um dos homens mais bonitos da cidade. O mais bonito para ela. E considerava isso há anos.
   Quebrando o silêncio após escutar a torneira jorrando água, ele disse que gosta tanto de ver a chaleira chiar. Como se com ele conversasse, contando-lhe urgências... Ele desencaminha o assunto para objetos externos, ganhando o tempo dela, que prepara o seu café, tentando lhe devolver o foco. Precisava destilar o álcool que bebera em algo forte, porém sereno. Ele a olha como quem quer tudo, mas ela só quer umas poucas palavras. Já passa das três da madrugada e ele agora troca o hálito do ar com o seu cigarro caro. Pergunta se ela tem por hábito recolher estranhos em bares lotados e preparar-lhes um café no cinza das horas. Ela disse que já o conhecia, de alguma avenida, daquela loja de tintas, quem sabe, talvez de outra louca vida. 
   Ele proferiu que louca é ela, e riram. Riram como quem pisa mesmo em cacos de vidros. Falou que o café estava amargo e pediu papel e caneta, colocou um bilhete em suas mãos e saiu sem dizer nada. Ela num espasmo leu "o demônio que habita em ti, já morou em mim'', uma cena quase que baudelairiana. A partir daquele momento, ela poderia persegui-lo em todos os bares mais ínfimos, para vê-lo, corrompendo outras moças estonteadas, mas apreciadora de um bom drama. Escreveu o nome dele na sola do seu sapato favorito e voltou para o bar. Essa noite ela vai dançar até ele se apagar dela.

sábado, 3 de junho de 2017

Ontem à noite, a noite tava fria, tudo queimava, nada aquecia.

Você me causou danos irreparáveis
E te ver naquele breu noite passada
Desenraizou sensações profundas em mim
Enquanto Humberto Gessinger cantava
Que aquela noite, aquela noite estava fria
Tudo em mim doía
Eu gostei tanto de você, Dionísio
Para terminar assim
Me faltando luz, palavras e sossego
Você me olhou 
como quem olha e se arrepende 
um nanossegundo depois
Eu te acompanhei de fita
Vi você me ver fingindo que não via
Vi você destilar encantamentos em outros ouvidos
Vi uma mão pousar na sua perna
Outra mão acariciando seu ombro
Vi você tentando ser grande
Mesmo sendo tão parco e diminuto
Vi as luzes daquele bar refletindo  
sua beleza ascendente
Me vi caindo
Por que você não vê?


Título: Piano bar - Engenheiros do Hawaii

quarta-feira, 3 de maio de 2017

É bom se lembrar de respirar de novo, de novo.

Tu és a minha paixão favorita
Te escrevi versos silenciosos e gritantes 
Durante esses dois anos

Te envolvi na minha esperança de reciprocidade
Te banhei na mitologia
Te chamei de Dionísio
E hoje tu nem lembras o meu nome

A fachada da loja que tanto citei nos meus poemas
Hoje é de outra cor
E não me dói mais
Mas é tudo tão estranho

Eu acho que vou te querer toda minha vida
Quando estiver gostando de alguém 
E não mais escrever

E todas as vezes que um cara me magoar
Vou continuar lembrando de ti
Como alguém que soube me olhar de verdade
E me despiu dentro daquele bar abarrotado de gente
Somente por me reconhecer tecelã mulher poesia

Tu me tocaste
E ninguém vai saber o quão inteira fui na ilusão que eu sentia

Teus olhos ainda são os mais lindos dessa cidade

Feliz aniversário, meu bem.



quarta-feira, 29 de março de 2017

Me sorria no escuro a tristeza mais ornamental, não é mesmo, Dionísio?

Deu vontade de lembrar
Mesmo que eu escreva coisas indizíveis
ou me repita de novo
Eu sempre decoro com flores e perfume doce
quem me fere com amargura

Eu lembro dos seus olhos cintilando 
na mísera luz daquele banheiro
Enquanto eu lutava para acreditar que realmente
podia te tocar a qualquer minuto

Entre mãos
e braços
Beijos e abraços
Plagiando Leoni
Eu cuidaria sempre de você

Não me importando 
com qualquer paixão primaveril 
que possa me acometer pelo meio do caminho

Aquele Outro 
um dia me perguntou
Se eu iria se você chamasse
Eu iria na hora
Você sabe

Porque só te olhando
eu me sinto viva

Pequena cortesã
de sentimentos majestosos
Assim me faço tua
me sentindo inteira

Na mentira
No desejo
No precipício.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

...

Não sei aonde você se esconde
quando não lhe vejo em estacionamentos
e correndo no fim de uma sexta-feira quente

Você sumiu dos bares
Das noites
Mas não dos meus poemas

Mesmo que eu conheça cem homens
e escreva sobre mais dez
Nem um possui sua vulgaridade estonteante

Ninguém desperta em mim
essa paixão descomunal

Que faz eu desgostar de Tim Maia
Só por saber que você o escuta 
pensando em outra pessoa

Eu penso em você 
quando algum outro me põe a faca no peito
Corta meu coração a lâmina
somente por não se interessar 
em conhecer a Adélia Prado

Tim disse por você 
que ela partiu e nunca mais voltou

Tim disse por mim 
que meu coração pensa
que não vai ser possível

Mas toda vez que eu olho...








segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Menino, deus urbano, neto do sol.

                               [com você eu tenho mesmo que me conformar]



   Ele gosta de beijar homens. E ele queria um lugar que pudesse beija-los e ser visto sem pudor e espanto. Ele quer beijar homens durante o dia, longe das quatro paredes e longe do breu da noite. Ele é um desses caras, extremamente bonito que a mãe cobra dois netos e que arruína mulheres com seu perfume e olhar por entre óculos escuros ao cruzar a avenida. Ele quer beijar outro cara, mas ele arquitetou um personagem para si mesmo, aquele que vive nos bares se deleitando nos pescoços da juventude feminina da cidade. 
   Mas ele beija rapazes porque é o que mais gosta de fazer. Ele está beirando os trinta anos e só quer beijar outro homem em frente ao quiosque, ou dentro do mesmo bar que tenta ter uma ereção ao beijar uma mulher, duas mulheres por madrugada. Ele parte o coração das mesmas quando se deita com elas e faz tudo certo, goza e oferece orgasmos e afagos (e)ternos. Depois nunca mais. Ele continua vazio. 
   Este papel está lhe cansando. Ele quer beijar o seu rapaz no meio da praça central, depois encostar sua cabeça no ombro dele e suspirar após um dia de poucas vendas no trabalho. Ele quer que a sociedade entenda que ele gosta mais de ser penetrado do que penetrar. Mas ele penetra vidas e borra batons até o raiar do dia enquanto pensa que pode tentar fazer com que suas vontades sejam respeitadas mais tarde. Agora ele só quer ser o homem que beija mulheres como quem toca em algodão doce. Ele é doce, e há sempre alguém que se desfaça.

17/10/2016



segunda-feira, 7 de novembro de 2016

E ele é, o meu amor pelos espaços

De manhã eu queria não lembrar
Minha desventura é recordar
Do andar majestoso
E de cada ruga ao lado dos olhos
Verdes lindíssimos]
O aroma amadeirado e de notas fortes
Mesclado ao cheiro de solidão opcional
Saudade
de cada centímetro da sua pele
onde eu pude habitar
Os dias têm sido tão angustiosos
Sem a certeza de que você ainda me lê
e de que aceita essa minha paixão estrófica
Aceita?
Deixa eu te purificar com minha interioridade invulgar
Como se eu fosse divina
Como se eu fosse profética
Como sou sua.


Título: Florbela Espanca

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Me queira bem, meu bem.

Suas mãos
em volta do meu pescoço
enquanto se deleitava em mim - Eu lembro
Nossos suores
se transmutando em vontade
de sermos um só
Pelo menos por alguns segundos
Minha respiração embargada
nos ouvidos do único homem
que fez-me sentir
mulher
Seus olhos flamejantes
Me passando a sentença
de que juntos
Somos sim,
produtos inflamáveis
dentro dessa atração perigosa
Eu te quero tanto, homem
Deixa-me decorar sua nuca
com minhas marcas de amor marginal
Seja meu
Dionísio
Rodrigo
João
Seja o homem que me queira
e não precise de mais ninguém.



















Imagem: Nickie Zimov

sábado, 15 de outubro de 2016

A grande mentira que ele era, era verdade.

                                                          Sugiro que leia escutando Olhos nos olhos, na voz de Maria Bethânia.




   Lembro da madrugada que eu estava no bar e entreguei uma carta para ele e logo depois o vi beijando uma menina, quis chorar e saí pra fora, liguei para uma amiga às 4 da manhã dizendo que queria voltar lá e pedir minha carta de volta. É engraçado, mas dói bastante ainda. Sabe quando acontece algo ruim? E você pensa: Daqui há um ano estarei rindo disso.
   Um ano depois, não estou rindo. Porque foi algo pesado. Sou apaixonada pelo que inventei dele, a única coisa que é real são aqueles olhos verdes famintos. Ele é o homem mais lindo da cidade. Não digo só pela aparência, mas a maneira como ele anda e se porta, o jeito que ele pisca os olhos... É lírico. 
   Eu o reconheço de qualquer jeito e isso me entristece. Vê-lo andando distraído pelas ruas dessa cidade acaba comigo. Porque eu me distraí escrevendo sobre ele e agora não há nada. Nunca houve, apenas migalhas. Mas eu me agarrei tanto nisso. Ainda sonho com ele e acordo me perguntando o porquê. Calcanhotto perguntou para que servem as ruas, e eu também gostaria de saber. Mas para que serve esse desgosto com gosto agridoce na boca? Por que digo seu nome na intenção de me salvar? 
   Não posso lhe trazer de volta para minha vida cada vez que o vejo no outro lado da rua sorrindo para o estrago. Me sinto uma criança de 5 anos que só quer sair correndo sem perceber que vai tropeçar nos próprios pés. Eu sempre tropeço por ele.

Obrigada, Caio Fernando... Pelo título.


sábado, 8 de outubro de 2016

des.co.nhe.ci.do (particípio de desconhecer)

                         Pessoa cuja identidade se desconhece; estranho


   Inventam datas para tudo, não é mesmo? Já pode virar feriado nacional o dia que você me deu o último beijo embaixo da chuva naquele fim de noite? Ah, já é feriado, de Tiradentes. Cê lembra? Essas coisas corriqueiras também deveriam sair no jornal. 
   Eu acho que te amo agora, porque depois de tanto tempo sem nos falarmos, sem nos vermos, sem querer, eu tirei o dia para pensar em você e escrever isso. Juro que troquei a estação do rádio agora e está tocando aquela música de quando eu te toquei pela primeira vez no escuro da sua sala. Queria que você estivesse lendo isso e me perguntasse que música é... 
   É, não te esqueço. Você me cortou e jogou sal nas minhas feridas e mesmo assim eu escrevo. Não consegui me apaixonar por outra pessoa, a cidade me embrulha homens mais vulgares que você e eu acho graça. Só em você achei poesia.



















Imagem: Demi McCulloch

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Por não ser real, eu me perdi na calma do não.

Um ano
50 poemas
Um codinome
Um nome com sete letras
Os olhos
Com o tom de verde mais bonito que já vi
A pessoa que mais me entristeceu
Pérfido inescrupuloso sujo
Um homem comum
Um personagem endeusado
Meu coração cortado à lâmina
O ego dele festeja
enquanto minha dignidade rasteja
Se dor rima com calor
Você poderia me abraçar de novo
Porque vai arder
quando no mesmo segundo
eu lembrar
que você não é meu
Também não sou minha
Sou de Dionísio, mais do que fui sua
Quem é Dionísio? Quem sou eu?

Queima...



(Será que você pode escutar Creep do Radiohead por mim, pela última vez?)




domingo, 21 de agosto de 2016

Meu amado não me amou

                                                                      Não encontrarás um cravo ou 
                                                                      uma rosa, uma flor na minha literatura.
                                                                      Mas encontrarás um punhal ou um fuzil.
                                                                                           Jorge Amado



Todos eles falavam dos meus olhos - tristes
Mas você não teve olhos
Para ver os meus olhos
E eu não conseguia enxergar isso
O deslumbramento me anuvia sempre
Depois do que se sucedeu,
o vermelho daquela esquina
me faz ter vontade de gritar coisas horríveis
Paletas de cores 
de qualquer loja de tintas
Me farão sentir raiva e repulsa
Te vi com olhos de poesia
Porque adensei sua feiura
Me perdi no seu corpo gelado
Por querer escrever versos drummondianos
em sua pele com minha boca quente
Eu congelei
Meu Deus, eu congelei.

11/08

domingo, 14 de agosto de 2016

Sutil afago em meus sentidos

Eu perdi as estribeiras, querido
Posso lhe chamar de querido?
Mesmo que soe tão falso 
como sua bondade

Eu pensei em jogar bilhetes 

no seu quintal 
Eu quis pichar a calçada do seu trabalho 
Senti vontade de colar panfletos 
do que te escrevi 
nos postes todos da rua dos Andradas

Mas pessoas como você

não merecem nem a água que bebem
É como se apenas sobrevivessem 
de egocentrismo

Após entender isso, 

escutei músicas horríveis 
só para conseguir chorar de verdade

Eu conheci homens adoráveis, e vis também

Por muito tempo eu me esquivei 
de toques 
de olhares
minuciosos

Depois descobri a delícia

de abraçar quem quer me abraçar
de despir quem quer se desproteger
somente para mim

Mas ainda penso em você

quando lembro de sentimentos arredios
e toques aveludados

Você conseguia elaborar uma réplica de paixão 

embasada num olhar abrasivo
Você me tocou e eu me senti viva.

02/08

Título: Manuel Bandeira

domingo, 7 de agosto de 2016

Au revoir, grande homem pequeno.

Eu vivia na espera dos gestos noturnos
Era só ele encaminhar aquele olhar insano sobre mim
Que eu duvidava da existência dos Deuses
Era só ele dar a entender que me queria
Que eu pegaria meus livros todos e faria uma fogueira
Para aquecer nossos corpos extasiados
De tanta luxúria e desejo
Agora, olhando para o passado-recente
Percebo que eu não mensurava os danos dessa doença
A cura não é absoluta, o vício pode retornar
Quando ele passar por mim na rua
entretido com a paisagem urbana
Me inspirando sem querer mais uma utopia boba
Eu tenho uma fraqueza por belos receptáculos
Os que me fazem crer em divindades
somente por poder admirar perfeitas anatomias
Talvez seja futilidade minha
apreciar mãos bonitas, corpos grandes e robustos
decorados com olhos de atacamita
Mas é por eles que escrevo
e me dispo até a alma
É por eles que me distraio 
só para me destruir.

Meu bem, eu gostei tanto de você até cair
Agora me deu vontade de levantar e gostar de outra pessoa.


20/07/2016

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Só te conheci no bar

   Penso que comecei a escrever sobre você por causa da sensação de impossibilidade que acometia tudo. No decorrer dos meses, quando fui lhe observando melhor, pude ver que você é a pessoa mais acessível do mundo. Então transmutei a errônea sensação, e assassinei um pouco desse encanto. Eu sempre quis algo limpo, quiçá, imaculado. Algo que não tivesse a intenção de quebrar os meus invólucros, nem a minha sensatez.
   Por mais que o sujo me fascine, ele me induz a desejar barbáries, eu morro por dentro quando te penso com outras pessoas... Essa perdição é uma via dupla, quando quero tanto que você me encontre e me enxergue, esbarro no medo de você me ver por aí e eu não estar com o cabelo ajeitado. Sinto taquicardia toda vez que passo perto da rua do seu trabalho, logo depois, sinto remorso por não ter optado por um trajeto mais distante.
   São pequenos acontecimentos banais que fazem eu voltar para casa querendo me apaixonar por alguém que possa também me achar interessante quando estiver sóbrio. Mas isso também é banalidade, eu não escolheria me apaixonar por qualquer pessoa que fosse. A paixão é bonitinha só na primeira semana, o resto do tempo é um constante desespero. Poderia dizer que eu não a desejo a ninguém, mas ela abrange todos. Que crueldade!
  
   Depositei em você a minha vontade de ter alguém mais próximo do personagem que eu não saberei jamais inventar. 

Esse personagem foi você 
na maior parte das vezes 
em que me olhou sem me notar
em que me olhou para me adivinhar 
em que me olhou sem querer me ganhar
em que me olhou para me magoar

Mas você quis ser o que escrevi
para sentir-se mais mundano
Todas que lhe quiseram, conseguiram 
Eu também consegui
Então não há motivos para me entristecer. 

07/07




sexta-feira, 1 de julho de 2016

Porque se você pisca, quando torna a abrir os olhos o lindo ficou feio

Eu sonhei que lhe via
Acordei às 5 da manhã e pensei nisso 
com afinco e estranheza
E no desenrolar do dia
senti que poderíamos nos ver 
a qualquer minuto
Alheios e desatentos pela cidade
Mas foi naquela esquina que se recriou 
meu silencioso espanto
Você no outro lado da rua
Me olhou para me enxergar
Te olhei para inventar
[Mais esse poema]
Me olhou como quem um dia 
comprou um beijo 
Como quem compra um jornal
E senti a tristeza velada de Drummond
Me olhou
Te olhei
Olhou para outro lado
Olhei para o chão
Não nos conhecemos mesmo
Você ter tirado a minha roupa
Eu ter te escrito dezenas de poemas
Jamais nos farão conhecidos
Apesar de eu saber o seu nome há 4 anos
Não, você não se chama Dionísio
E nem tudo o que escrevi foi inventado
Suas descrições por mim salientadas
Te fazem previsível
E de mim pouco seletiva.

25/06


Título: Caio Fernando Abreu