são dias amenos
e tediosos
da janela da sala
avisto o jardim da senhorinha
minha vizinha
me permito rimar
pois o encanto é abrangente
aqui chove demais
mas tá tudo bem sentir saudade
saudade dos bares
da minha casa
do meu pai e irmão
do cachorro fuzarqueiro
dos poucos amigos
saudade daquele beijo na boca
e das praças
e do bom chimarrão
aqui a poesia me rejeita
habitei as mesmas ruas
por tanto tempo
chega a ser banal me sentir transposta
quando me perco em Saturno
ou em Urano
novas ruas
com nomes de planetas
estou aprendendo ser meu próprio lar.
quarta-feira, 13 de março de 2019
quinta-feira, 24 de janeiro de 2019
Para ler escutando The Cranberries - Linger
todas as coisas que vivemos
eu já escrevi
não faltou tempo
faltou vontade
agora eu tenho que revirar minha mente
em busca de detalhes seus
que não morrem em dias quentes
o clichê de gostar tanto pra tão pouco
a noite que você foi me buscar na faculdade
eu quis tanto que se repetisse
como se fosse natural
como se as minhas pernas fossem
o lugar favorito das suas mãos enquanto você dirige
mas sempre existiu outras pernas
as pessoas me alertaram
sua baixeza era evidente
poesia alguma o salvaria
mas essa aura me arrastava até a sua porta
toda vez que eu precisei de paixão
hoje você é um prurido na minha pele
me faz tão mal
sempre volta a me perturbar.
Arte: Tina Maria Elena
quinta-feira, 17 de janeiro de 2019
A esperança é uma droga alucinógena.
por tanto tempo
esperei um gesto
algo que adiasse
a degradação
se a minha existência
lhe tocasse
se a minha presença
no outro lado da rua
lhe tirasse o sono à noite
se tudo fosse diferente
essa história não seria minha
acho que já escrevi
um poema assim
mas nunca doeu assim
a dor se aperfeiçoa
não é mesmo?
e eu estou sempre
me repetindo
mas bastaria um gesto seu
para cessar a corrosão.
Título: Rubem Alves
esperei um gesto
algo que adiasse
a degradação
se a minha existência
lhe tocasse
se a minha presença
no outro lado da rua
lhe tirasse o sono à noite
se tudo fosse diferente
essa história não seria minha
acho que já escrevi
um poema assim
mas nunca doeu assim
a dor se aperfeiçoa
não é mesmo?
e eu estou sempre
me repetindo
mas bastaria um gesto seu
para cessar a corrosão.
Título: Rubem Alves
quarta-feira, 9 de janeiro de 2019
O amor que não dá certo sempre está por perto.
Aquele ar saudosista está pairando por aqui, agora consigo notar as rachaduras dos velhos sobrados da avenida mais movimentada, a sensação é confusa. Mesmo assim, não pertenço a esse lugar. Mesmo se você tivesse me abraçado dentro do meu bar preferido, mesmo se você gostasse de mim... Eu teria que ir embora. Mas ao menos iria sabendo que morei no seu peito. Hoje lembrei da noite que limpei as lentes dos seus óculos com o lenço dos meus, e você me olhou com afeto. Sem imaginar que eu poderia fazer muito mais se você deixasse. Na verdade nunca irei esquecer de todas as pequenezas que constituíram os nossos momentos, mesmo que logo ali na frente você esqueça o meu nome. Até esse minuto presente posso dizer que ninguém me dilacerou dessa maneira, mas o meu coração partido eu sempre colei com poesia. E será sempre desse jeito. Mesmo que o seu jeito me assombre e me rompa em diminutas partículas de açúcar. Você se desfez tanto de mim, não consegui escrever durante esses três meses, eu precisei desse tempo para sentir isso, sentir meu corpo se desfragmentando naquele evento abarrotado de gente onde outras mãos seguravam as suas mãos no centro da cidade, para todos verem. É compreensível a dor. Meus pés na água fria de Copacabana não esfriou a sua imagem na minha cabeça. Seu nome no meu celular após tudo isso, sua precisão epidérmica de mim espezinha minha crença em grandes pertencimentos. Você me procurou só para comprovar que essa minha paixão é mais elevada que o morro do Corcovado. Eu vou ir embora e você nem sabe, se soubesse não se afligiria pois seria desimportante não me ver nunca mais. Preciso ir, sobretudo para me conhecer e me amar. Para nunca mais gostar de quem me esconde, de quem diz que não pode me ver mais vezes, de quem numa noite me queima no colchão e me esquece no outro dia. Vou ir embora porque nunca mais quero sentir isso.
Título: Cacaso, no livro "Lero-lero".
sexta-feira, 26 de outubro de 2018
Eu me curvo para essa primavera onírica
Não haveria essa angústia no peito, pois você me enviaria uma mensagem no final da tarde dizendo que o dia foi corrido mas que mesmo assim pensou em mim. Nos veríamos amanhã, você me buscaria com uma música alta no carro e eu me sentiria tão aliviada por poder segurar sua mão enquanto você dirige. Vamos tomar sorvete no calçadão? Eu sempre escolho doce de leite com ameixa, você chocolate. Você nunca liga por eu terminar o meu por último, até derreter e virar nas pernas. Você acha graça. Eu acho graça de viver assim sabendo que você é por mim. Você me passa o controle remoto, me deixa escolher o filme todas as vezes e depois ri, diz que sempre escolho um filme louco. Toda vez que você sai da cama, me dá um beijo no braço. Eu floresço por dentro. Você dorme, eu contorno as sardas das suas costas. Não consigo dormir, não quero estragar esse sonho. Nesse sonho você sabe pedir desculpa, e é sempre delicado. Nunca piegas. Nesse sonho você fala que eu sou um achado. Você é o melhor que já me tocou. Nossa vulgaridade é sempre poética, você me come como ninguém. Na minha cabeça toca Buckley e Fraser no escuro do seu quarto quando te beijo antes de ir embora. As pessoas que passam dentro dos seus carros durante a madrugada e nos avistam na sua sacada sabem, que somos envoltos por essa adoração sagrada, mesmo que obscena. Mordo seus lábios e essa paixão dói em mim, de tão viva.
Não é real.
Nada disso aconteceu.
Não é real.
Nada disso aconteceu.
domingo, 21 de outubro de 2018
Três meses foi ontem
O que eu faço
com a vontade
de procurá-lo
depois de você passar por mim
na avenida e
colocar a cabeça para fora do carro
como se nunca
tivesse me visto antes?
Pensei em você toda a semana
como se fosse possível
chamá-lo em pensamento
Você me desespera
sempre quando penso
no quão difícil é esquecer
Morro de medo de ir embora
e enxergar um carro igual ao seu
e trazê-lo de volta
em outra avenida
em outra cidade
em outro estado
Eu lembro da saliva quente
das mãos quentes
da forma como um suspiro
faz sua boca se transformar
na letra O
do meu jeito preferido.
Arte: Tina Maria Elena
com a vontade
de procurá-lo
depois de você passar por mim
na avenida e
colocar a cabeça para fora do carro
como se nunca
tivesse me visto antes?
Pensei em você toda a semana
como se fosse possível
chamá-lo em pensamento
Você me desespera
sempre quando penso
no quão difícil é esquecer
Morro de medo de ir embora
e enxergar um carro igual ao seu
e trazê-lo de volta
em outra avenida
em outra cidade
em outro estado
Eu lembro da saliva quente
das mãos quentes
da forma como um suspiro
faz sua boca se transformar
na letra O
do meu jeito preferido.
Arte: Tina Maria Elena
quinta-feira, 4 de outubro de 2018
Para ler ouvindo: Arctic Monkeys, Do I Wanna Know? (cover Dua Lipa)
não consigo
eu vejo o teu carro
em todas as avenidas da cidade
tem sido tão penoso
te busco nos bares
farejo teu cheiro
em outros pescoços
as semanas escorrem
com a minha saudade de ti
fazemos aniversário no mesmo dia
poderíamos dividir o bolo
e dividir a cama até o raiar o sol
nunca vi o teu rosto numa manhã ensolarada
eu nunca serei a tua menina preferida
mas não deixo ninguém me tocar
para não apagar as tuas mãos em mim
como fujo dessa doença?
eu sou a garota para rir na tua cama
não para afagar teu rosto num velório.
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