remexendo em casa de marimbondo
é o que eu faço
quando lhe chamo em pensamento
e você vem
esse caso extrapolou a normalidade
beirando os trezentos e sessenta e cinco dias
que não uso o seu corpo
e mesmo assim não nos deixamos em paz
como se as tréguas dessa batalha apenas servisse
para nos lembrar de como ardíamos juntos com esplendor
eu sou louca por você
e sinto que você é louco por mim
mas você nunca dirá nada
nada que não seja para me magoar.
Título: Eugénio de Andrade, no livro "Antologia Breve".
22/07/2019
terça-feira, 29 de outubro de 2019
quinta-feira, 24 de outubro de 2019
Eu quero o conto de fadas
Sento na cama
no escuro do quarto
não consigo respirar direito
eu apertei meu corpo contra o seu
sob esse lençol com flores azuis
e você acordou comigo
rebatizando o domingo
você não vem
eu não vou
você nunca esteve lá para mim
nem aqui
ninguém jamais viu
você segurar a minha mão
eu não posso voltar
pois os cacos de mim
não conhecem a direção.
no escuro do quarto
não consigo respirar direito
eu apertei meu corpo contra o seu
sob esse lençol com flores azuis
e você acordou comigo
rebatizando o domingo
você não vem
eu não vou
você nunca esteve lá para mim
nem aqui
ninguém jamais viu
você segurar a minha mão
eu não posso voltar
pois os cacos de mim
não conhecem a direção.
segunda-feira, 1 de abril de 2019
atração herética
outra vez
no nosso bar em comum
você ressurge no ápice da noite
com você, eu sempre vou embora
os olhos mais lindos da cidade
meu dionísio
meu anjo renegado
você segurou na minha mão
e me beijou por todo o caminho
sentamos naqueles balanços
na pracinha da esquina da sua casa
como se tivéssemos 10 anos outra vez
você é o meu menino
preso num corpo de 30 anos
minha distração preferida
já me destruiu
me fez virar pó
mas você eternamente constitui minha vividez
me colorindo com suas tintas
me tocando como quem sabe o valor da poesia
você, meu personagem decadente
que num fugaz vislumbre
me lembra como é gostar
de quem a gente tanto odeia.
fev/2019
me lembra como é gostar
de quem a gente tanto odeia.
fev/2019
quarta-feira, 13 de março de 2019
solar
são dias amenos
e tediosos
da janela da sala
avisto o jardim da senhorinha
minha vizinha
me permito rimar
pois o encanto é abrangente
aqui chove demais
mas tá tudo bem sentir saudade
saudade dos bares
da minha casa
do meu pai e irmão
do cachorro fuzarqueiro
dos poucos amigos
saudade daquele beijo na boca
e das praças
e do bom chimarrão
aqui a poesia me rejeita
habitei as mesmas ruas
por tanto tempo
chega a ser banal me sentir transposta
quando me perco em Saturno
ou em Urano
novas ruas
com nomes de planetas
estou aprendendo ser meu próprio lar.
e tediosos
da janela da sala
avisto o jardim da senhorinha
minha vizinha
me permito rimar
pois o encanto é abrangente
aqui chove demais
mas tá tudo bem sentir saudade
saudade dos bares
da minha casa
do meu pai e irmão
do cachorro fuzarqueiro
dos poucos amigos
saudade daquele beijo na boca
e das praças
e do bom chimarrão
aqui a poesia me rejeita
habitei as mesmas ruas
por tanto tempo
chega a ser banal me sentir transposta
quando me perco em Saturno
ou em Urano
novas ruas
com nomes de planetas
estou aprendendo ser meu próprio lar.
quinta-feira, 24 de janeiro de 2019
Para ler escutando The Cranberries - Linger
todas as coisas que vivemos
eu já escrevi
não faltou tempo
faltou vontade
agora eu tenho que revirar minha mente
em busca de detalhes seus
que não morrem em dias quentes
o clichê de gostar tanto pra tão pouco
a noite que você foi me buscar na faculdade
eu quis tanto que se repetisse
como se fosse natural
como se as minhas pernas fossem
o lugar favorito das suas mãos enquanto você dirige
mas sempre existiu outras pernas
as pessoas me alertaram
sua baixeza era evidente
poesia alguma o salvaria
mas essa aura me arrastava até a sua porta
toda vez que eu precisei de paixão
hoje você é um prurido na minha pele
me faz tão mal
sempre volta a me perturbar.
Arte: Tina Maria Elena
quinta-feira, 17 de janeiro de 2019
A esperança é uma droga alucinógena.
por tanto tempo
esperei um gesto
algo que adiasse
a degradação
se a minha existência
lhe tocasse
se a minha presença
no outro lado da rua
lhe tirasse o sono à noite
se tudo fosse diferente
essa história não seria minha
acho que já escrevi
um poema assim
mas nunca doeu assim
a dor se aperfeiçoa
não é mesmo?
e eu estou sempre
me repetindo
mas bastaria um gesto seu
para cessar a corrosão.
Título: Rubem Alves
esperei um gesto
algo que adiasse
a degradação
se a minha existência
lhe tocasse
se a minha presença
no outro lado da rua
lhe tirasse o sono à noite
se tudo fosse diferente
essa história não seria minha
acho que já escrevi
um poema assim
mas nunca doeu assim
a dor se aperfeiçoa
não é mesmo?
e eu estou sempre
me repetindo
mas bastaria um gesto seu
para cessar a corrosão.
Título: Rubem Alves
quarta-feira, 9 de janeiro de 2019
O amor que não dá certo sempre está por perto.
Aquele ar saudosista está pairando por aqui, agora consigo notar as rachaduras dos velhos sobrados da avenida mais movimentada, a sensação é confusa. Mesmo assim, não pertenço a esse lugar. Mesmo se você tivesse me abraçado dentro do meu bar preferido, mesmo se você gostasse de mim... Eu teria que ir embora. Mas ao menos iria sabendo que morei no seu peito. Hoje lembrei da noite que limpei as lentes dos seus óculos com o lenço dos meus, e você me olhou com afeto. Sem imaginar que eu poderia fazer muito mais se você deixasse. Na verdade nunca irei esquecer de todas as pequenezas que constituíram os nossos momentos, mesmo que logo ali na frente você esqueça o meu nome. Até esse minuto presente posso dizer que ninguém me dilacerou dessa maneira, mas o meu coração partido eu sempre colei com poesia. E será sempre desse jeito. Mesmo que o seu jeito me assombre e me rompa em diminutas partículas de açúcar. Você se desfez tanto de mim, não consegui escrever durante esses três meses, eu precisei desse tempo para sentir isso, sentir meu corpo se desfragmentando naquele evento abarrotado de gente onde outras mãos seguravam as suas mãos no centro da cidade, para todos verem. É compreensível a dor. Meus pés na água fria de Copacabana não esfriou a sua imagem na minha cabeça. Seu nome no meu celular após tudo isso, sua precisão epidérmica de mim espezinha minha crença em grandes pertencimentos. Você me procurou só para comprovar que essa minha paixão é mais elevada que o morro do Corcovado. Eu vou ir embora e você nem sabe, se soubesse não se afligiria pois seria desimportante não me ver nunca mais. Preciso ir, sobretudo para me conhecer e me amar. Para nunca mais gostar de quem me esconde, de quem diz que não pode me ver mais vezes, de quem numa noite me queima no colchão e me esquece no outro dia. Vou ir embora porque nunca mais quero sentir isso.
Título: Cacaso, no livro "Lero-lero".
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