terça-feira, 10 de julho de 2018

A gente gosta de entrar na merda e sentir o geladinho, até a merda feder.

   Eu quis chorar, então fui procurar paz naquela biblioteca com grandes janelas de vidro e vi a noite se aproximando enquanto as pessoas queriam apenas fugir do frio desse julho triste. Mais triste sou eu. Sábado você me deu um gelo, após ter queimado meu coração na sexta-feira. Eu lembro a cara que você fazia, suspirando enquanto minhas mãos passeavam pelo seu corpo, ficamos grandes demais dentro do seu carro apertado. Depois pela primeira vez em dois anos você me falou sobre outra pessoa, eu tive que escutar suas sentimentalidades com cara de paisagem. Você disse que ela é um achado e que talvez nunca encontre alguém como ela nessa vida. Morri por dentro. Se em dois anos você não percebeu que eu também sou um achado, não será nessa existência. Dez meses sem beijar a sua boca só confirmou a minha vontade da sua boca para o resto dos meus dias. Mas você sempre acaba comigo. Mais tóxico que isso só os ares de Chernobyl. 
   É para mim que você corre quando a vida lhe cansa, apenas eu que não respeito o meu cansaço. Você me faz criar elegias hostis e viver cansada. Fadada à mendicância. Como se escrever meu nome junto a um coração no vidro embaçado fosse prova de afeto bonito. Querendo que eu ficasse lisonjeada e permanecesse na palma da sua mão, enquanto eu desintegro de mim. Meus princípios desviam dos seus, você ri como se fosse doce o sabor do pertencimento. Nós na cidade, constituindo a avenida, dentro da neblina, dentro da garagem, dentro do seu carro, minha cabeça descansando no seu peito, você beijando o meu cabelo e segurando o meu rosto perto do seu. Jamais esquecerei, como não esqueci de cada detalhe seu acontecendo no meu cotidiano nesses dois anos.
   Gostar assim rasgou a minha dignidade, logo eu que tanto lutei para parecer correta, hoje me vejo com seus olhos e então sou pueril. De nada valeu os poetas que li, as dores que escrevi, os filmes que lavaram o meu rosto me confirmando a pacacidade da rotina. De nada valeu todo e último amor que julguei ser o mais infame e mais pesado, se a cada nova atração me vejo cada vez mais por baixo. Você, você de todos foi o que mais fez pouco de mim. Ainda assim, te olhei nos olhos pedindo para me salvar de viver outro gostar mais parco logo ali na frente. 

























Título: Metáfora do Fred Elboni

sábado, 26 de maio de 2018

Eu sou cordão umbilical, pra mim nunca tá bom

Essa autoanulação
De estender as mãos para as migalhas 
que você deixa cair
Quando você me fere a alma 
falando que viver assim
é a sua meta de vida
Usurpando corpos pela madrugada
Pedindo silêncio ao subir as escadas 
pois os seus pais estão dormindo
E eu aqui
pensando em voltar para isso
Só para ter o seu cheiro na minha pele
na rotação das semanas
Ansiando pela minha próxima vez
Como se fosse bondade sua
me querer de novo
mais de uma vez nesse semestre
O frio do fim de maio
conseguiu alcançar o seu coração
E eu nunca te alcançarei
Hoje eu chorei
Por entender que voltar para isso
É morte bestial
Eu sou aquela personagem de Caio
Que esmagou o corpo contra flores não nascidas
Apertou o peito contra a laje fria do cimento
E como Caio, eu acho que

"Você não vai muito além desses príncipes pequenos suas palavras todas não tenho culpa não tenho culpa eram de quem pedia cativa-me eu já não conseguiria bem lento eu não conseguiria eu não sei mais inventar..."


Título: Todo homem, Zeca Veloso
Trecho do Caio Fernando Abreu retirado do conto A quem interessar possa.

domingo, 6 de maio de 2018

Quero ler isso rindo quando acabar

provas na faculdade
desentendimentos familiares
minha gata adoeceu
tantas coisas pesando a minha cabeça
eu só queria fugir disso
me escondendo no seu quarto
seu cheiro de ilusão boa
tornando minha vida mais à toa
enquanto eu anoiteço 
sempre sem significado algum
escrevo isso
no momento em que você tira o carro da garagem
para buscar alguém
te anseio no outro lado da tela
e vou dormir mais uma vez sem conseguir chorar.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Você é o meu Dionísio até essa loucura acabar

não posso lhe ver alheio por aí
pois você gruda na minha mente 
de um jeito muito rude
daquele jeito que não sai com água e sabão 
eu digo pra mim mesma que nem gosto mais de você
mas é só vê-lo numa fila de uma festa
ou atravessando a rua com um copo de cerveja na mão
que meu coração dispara querendo atravessar o quarteirão 
você foi mais um dos meus amores fadados
que depredou a minha comoção 
eu senti tanto nojo, ódio e mágoa de você
que sentir saudade hoje 
é necessário
você beijou minha bochecha no último final de semana
no mesmo bar em que tudo aconteceu há três anos
e eu consegui sentir ternura depois de muito tempo
mesmo que você nem lembre do que tenha feito
[nessa madrugada em questão
ou nas vezes que me feriu nos dias que se passaram]
a repulsa sempre escondeu um pouco da atração
mesmo que eu traia minha sanidade 
te desejando com força
só mais uma vez.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Para a segunda letra do alfabeto

foi nesse dia
no último setembro
eu lembro como se fosse a noite passada
o tempo corre para nos afastar
os vestígios dissipam-se
a memória vai apagar o gosto da boca
e a temperatura das suas mãos em mim
e quando eu passar na sua rua
vou pensar que conheço seu apartamento por dentro
e você nem me conhece
o sexo desenfreado
o calor extasiante
a minha vontade
de dormir com você todos os dias
nas horas em que lhe via dormindo
me abraçando com força
a nossa vontade de jogar todas as sensações 
na sua cama
esquecendo que
voltaríamos para a estaca zero no outro dia
pagando o preço por nos querermos desse jeito
porque o meu jeito perturbaria a sua liberdade
há mais ou menos dois meses você disse 
sentir medo que certas coisas virem rotina
eu tenho medo que certas coisas não virem nada

ah, como seria bom se a vida virasse
e você percebesse.
se você ousasse.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Me beija de novo, quero lembrar amanhã

Eu lhe beijei depois de quase dois anos
E não tocou Creep na minha cabeça
Eu lhe beijei e não consigo lembrar do beijo
Só lembro da frase reles 
que você proferiu nos meus ouvidos
Em meio àquela madrugada escassa
Você só me causa curiosidade agora
Como vive o homem adornado de álcool e 
fama arruinada?
Como posso viver bem 
se lhe coloco sempre na minha vida 
quando a poesia ameaça a me deixar?


















Arte: Agnes Cecile

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Meu estimado idiota

Com essas mãos eu passei manteiga no pão
e enterrei o meu cachorro mais cedo
Com essas mãos eu te escrevo um poema
e afago o gato
Você nunca reparou em mim
Não conseguiu ver além da cor 
do esmalte
E a sua mãe só conheceu 
as cores dos meus batons nas suas camisas
Eu nem sei qual é o seu livro preferido
No bidê ao lado da sua cama 
descansa um livro com um título intrigante:
"O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota"
Você deve não ter lido.

22/06/2017