domingo, 28 de janeiro de 2018

Domingo

Na sexta-feira à noite você me procurou
Como se fosse sadio voltar atrás
Esquecendo que o rancor reveste o meu corpo
Eu não fui 
e você colocou outra no seu lado menos adorado da cama
Me enviou uma mensagem às 4h da cama
Flertando, porém querendo dizer:
"Eu não acordei agora, meu bem
Comi uma garota 
que está no banheiro enquanto te envio essa mensagem"
Você me faz duvidar dos mistérios da vida
Entediando as chances que crio 
para manter-me afastada
Parece que tudo é cansativo quando você
Não está me decepcionando
Hoje num domingo quente e nublado
Imagens e sons
Dos seus suspiros e espasmos
Ocasionados por outra
Passeiam em minha cabeça
Você não precisa de mim para nada
Outra pode lhe tocar melhor
Lhe beijar melhor
Lhe sentir melhor
Daqui a pouco irá passar na tv 
o último filme que assistimos juntos
Naquela noite em que ríamos
E recomeçávamos pela quinta vez
Hoje tenho certeza
Domingo é o pior dia da semana.





sábado, 6 de janeiro de 2018

Eu rio enquanto tudo dói

                                                                                                                  E ele ri,
                                                                                                é um riso de criança, um riso de idiota,
                                                                                                              riso por nada,
                                                                                                  é o único riso que compreende,
                                                                                                  e o quarto floresce de loucura.
                                                                                                  Acabou: a essência e a forma.
                                                                                                     Eu observo enquanto
                                                                                             ele apaga as velas com seus dedos
                                                                                       comprimindo o canto externo de cada olho
                                                                                                      e o quarto está escuro
                                                                                                  como tudo sempre esteve. 

                                                                                                       Charles Bukowski



Um gostar tão ínfimo 
que só te faz lembrar 
das sensações epidérmicas

Um gostar tão parco
que não permite
uma mensagem de bom dia

Um gostar tão diminuto
que te faz me querer 
só quando ninguém vê

Um gostar bem pequeno
que depois de saciar a vontade
passa

Um gostar miudinho 
que faz a gente se amar no quarto
e nos desconhecermos na rua

O tipo de gostar
que eu nunca quis
mas que você estreitou para nós

Um gostar que não te deixa
perguntar sobre a faculdade
nem sobre os meus livros

Um gostar que te impede de sumir
da minha vida para sempre
O gostar que me rebaixa



29/12/2017

sábado, 25 de novembro de 2017

Fui te procurar na rua e meti a cabeça no poste

Se você estiver lendo isso
Quero que saiba que lembrar de você
É tão bom quanto salpicar coco ralado numa cobertura de chocolate
do bolo que fiz há pouco
Lembrar de você me remete aos tempos de ingenuidade
Tempo que eu era capaz de entregar uma carta dentro de um bar
Carta que guardei por meses dobrada várias vezes ao meio 
A dor, ela não se resume ao vê-lo beijando várias pessoas 
enquanto tenta ser grande
Nem em olhar as suas fotografias no instagram 
e imaginar que nossos filhos teriam olhos lindos se puxassem a você
Ao menos, se eu quisesse ter filhos
Esse sentimento difundido erroneamente 
que faz eu lembrar você quando alguém me magoa por querer 
Pois você só me magoou porque permiti
E voltar atrás é irremediável 
Pois não sou mais a garota entrando pela primeira vez naquele bar
E você não é Dionísio e seu nome é impublicável 
Você era o homem mais bonito da cidade para mim
Mais bonito do que o pôr do sol que seus olhos capturam 
junto da câmera do seu celular a cada fim de tarde
Mais bonito do que sua luta por justiça em voz daquele estrangeiro
Você era bonito para quem o visse através dos meus olhos
Para quem o lesse na minha poesia
Hoje você é só apenas um rosto saturado 
em meio aos transeuntes 
Conhece músicas boas
Leu bons livros
Está engajado na política 
Torce por um time de futebol
Você é só um babaca bem informado
Com lindos olhos verdes - sempre bom lembrar disso
Gosto de lembrar de você pois ajudou-me 
a aprimorar minha capacidade de construir bons versos
Veja só, construí um castelo para um príncipe pequeno.


Título: A Grandiosa, Adélia Prado. 

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Você me despetalou, mas esse amarelo não sai de mim

Eu não consigo mais escrever
Mas daí vou ao supermercado 
e sinto falta de ter alguém para me ajudar 
a escolher boas cebolas
Penso em você
Mas você não sabe escolher nada
Eu sei disso, porque você não me escolheu
Naquela tarde ao atravessar a rua 
tão bruscamente 
E me deparar com você, que não não sabia 
como me olhar
Eu te olhei por dentro e concluí
Você cresceu demais em mim
Igual àquelas florzinhas amarelas 
que se expandem em meio ao capim
Você forrou 
a minha cabeça
o meu estômago
o meu coração
Com florzinhas amarelas
Você quis ser mais que o Sol
Sua ânsia de reluzir tudo
Fez-me esquecer que posso brilhar também
Mas você precisa cintilar sozinho. 



segunda-feira, 23 de outubro de 2017

A carta que eu jamais enviaria

Eu gosto da sua despretensão calculada ao me enviar uma mensagem, do jeito que as frases escolhidas parecem um vírus cibernético. Quando você me esquece por semanas e ressurge justo na semana que pensei demais em você, como se adivinhasse minha precisão do seu toque. Eu gosto de te ver sentado na cama enquanto tenta defender seu caráter que todos veem corrompido, você se explica, se ensina pra mim, diz que se importa com o que eu penso. Mas só em relação a sua imagem. Você fala, debate e filosofa. Mostra que sua ambição hoje se sobressai acima de qualquer mero desejo. Porém, me deseja até eu queimar nos seus lençóis. Eu ardo. A vida nesses momentos fragmentados ao seu lado é árdua. Eu gosto dos seus dedos entrelaçados nos meus enquanto nos abraçamos na horizontal. Gosto quando beija as minhas costas de um jeito terno, como se fosse possível eu eternizar tudo isso. O que você pensa quando eu vou embora? Eu penso no quão louco é eu ser amante de um cara solteiro. Meu cheiro alguma vez já ficou na sua cama? Eu queria ficar lá até o dia raiar. Eu gosto do tom da sua voz quando ri, gosto da minha risada quando rio contigo. É como se eu te conhecesse de verdade, mais do que consigo ver e mais do que você se permite dizer. Eu gosto quando se preocupa se vou bater a cabeça na madeira da cama e numa doçura sem igual, ajeita meu travesseiro. Queria congelar isso. Mas nosso fogo queima tudo. Você é amável demais para quem age com tamanha aspereza. Eu gosto da paz que sua respiração me passa ao te sentir envolto em mim enquanto dorme. E eu não consigo dormir, preciso aproveitar isso. Se eu te contasse tudo o que penso seria mais um alimento para o seu medo, para o seu ego. Dá tanta vontade de te atropelar com minhas ideias e gostos e visões de mundo, dá tanta vontade de te mostrar que minha passionalidade vai muito além do que você mensura. Você não sabe de nada, meu bem. Bem que podia saber e não sumir e não temer. Bem que podia gostar de mim como diz e me mostrar. Deixa eu saber que você gostou mais do que eu de tudo o que fizemos semana passada. Me envia uma mensagem de bom dia, me queira no final de todos os dias. Como se não houvesse outras mulheres mais bonitas e mais interessantes. Me queira bem, pra eu nunca mais querer ninguém. Outras mãos no meu corpo não conseguiram abrasar meu coração. Seja meu amigo, dividindo receios e orgasmos. Você esmigalha os cantos do meu cérebro quando diz certas coisas e afaga sem querer a minha alma. Me acalma. Queria dizer de um modo sútil que ser sua válvula de escape a cada duas semanas, uma vez por mês, me faz desacreditar nos mistérios da vida e que só corremos para o que nos deteriora porque no final da noite gostamos de culpar o destino. Você tem medo de que isso vire outra coisa. Eu tenho medo de que seja apenas isso. Mas quem sabe, quem sabe um dia você me olhe e enxergue mais do que a menina que ri e bebe e rola com você na cama. Seus projetos de vida não deveriam afastá-lo de alguém que lhe quer bem, admiro seu autocontrole de manter-se afastado, de criar desculpas porque no fundo não consegue gostar de mim como eu gosto de você. Te enviar sms de madrugada falando em paixão é uma das coisas que você não sabe lidar e você mastiga e cospe o que não sabe lidar. E me julga louca-intensa-passional, mal sabe que desde que descobri gostar de você no último dezembro eu tenho me compactado para caber dentro de uma caixinha que pareça ser o mais leve possível só para você poder me carregar no bolso. Uma caixinha de fósforos. Mas você nem fuma. 

Setembro 2017

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Numa barbárie eles se esbarraram no bar

                                                                                       Conto baseado em um antigo poema autoral


  Verdes, os olhos de pupilas dilatadas a encarando do balcão no canto do bar. E os olhos dela, tristes. Mas ele naquela mísera luz não teve olhos para ver. O deslumbramento e o álcool anuviam tudo, não é mesmo? Torcia ela para que ele fosse mais do que um adorno do ambiente. Almejava ele que ela fosse o troféu da noite. Entre olhares minuciosos e gestos impalpáveis, saíram os dois pisando em cacos de vidros na calçada, como quem pisa em estrelas. No caminho até o ponto de táxi, ela sentia os olhares dos bêbados e das putas da cidade sobre os dois juntos, inacreditando na exatidão daquela imagem. Ela possuinte de cabelos negros, tão pálida e desarticulada, com um dos homens mais bonitos da cidade. O mais bonito para ela. E considerava isso há anos.
   Quebrando o silêncio após escutar a torneira jorrando água, ele disse que gosta tanto de ver a chaleira chiar. Como se com ele conversasse, contando-lhe urgências... Ele desencaminha o assunto para objetos externos, ganhando o tempo dela, que prepara o seu café, tentando lhe devolver o foco. Precisava destilar o álcool que bebera em algo forte, porém sereno. Ele a olha como quem quer tudo, mas ela só quer umas poucas palavras. Já passa das três da madrugada e ele agora troca o hálito do ar com o seu cigarro caro. Pergunta se ela tem por hábito recolher estranhos em bares lotados e preparar-lhes um café no cinza das horas. Ela disse que já o conhecia, de alguma avenida, daquela loja de tintas, quem sabe, talvez de outra louca vida. 
   Ele proferiu que louca é ela, e riram. Riram como quem pisa mesmo em cacos de vidros. Falou que o café estava amargo e pediu papel e caneta, colocou um bilhete em suas mãos e saiu sem dizer nada. Ela num espasmo leu "o demônio que habita em ti, já morou em mim'', uma cena quase que baudelairiana. A partir daquele momento, ela poderia persegui-lo em todos os bares mais ínfimos, para vê-lo, corrompendo outras moças estonteadas, mas apreciadora de um bom drama. Escreveu o nome dele na sola do seu sapato favorito e voltou para o bar. Essa noite ela vai dançar até ele se apagar dela.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Se você gostasse de mim, eu saberia

Eu o vejo dormindo ao meu lado 
e não consigo tirar as mãos de você
O cabelo macio
O shampoo cheiroso
O montão de pintinhas nas suas costas
Nossos dedos entrelaçados enquanto assistimos tv
A sua risada
Tudo
Tudo que vem de você 
me pede um pouco mais de atenção 
Até as batidas do seu coração acelerado após o sexo 
eu pude sentir com mais exatidão ontem
Como se tudo virasse poesia na minha cabeça
Nossas bobagens
Você me apertando
Eu lhe fazendo cócegas 
A minha birra temporária
Você dizendo gostar de mim
e eu querendo saber como
Você diz que gosta do seu jeito
Eu não entendo
Mas volto sempre para a sua cama
E me despeço de mim.