segunda-feira, 1 de abril de 2019

atração herética

outra vez
no nosso bar em comum
você ressurge no ápice da noite
com você, eu sempre vou embora
os olhos mais lindos da cidade
meu dionísio 
meu anjo renegado
você segurou na minha mão
e me beijou por todo o caminho
sentamos naqueles balanços
na pracinha da esquina da sua casa
como se tivéssemos 10 anos outra vez
você é o meu menino 
preso num corpo de 30 anos
minha distração preferida
já me destruiu 
me fez virar pó
mas você eternamente constitui minha vividez
me colorindo com suas tintas
me tocando como quem sabe o valor da poesia
você, meu personagem decadente 
que num fugaz vislumbre
me lembra como é gostar 
de quem a gente tanto odeia.

fev/2019

quarta-feira, 13 de março de 2019

solar

são dias amenos
e tediosos
da janela da sala 
avisto o jardim da senhorinha 
minha vizinha
me permito rimar
pois o encanto é abrangente 
aqui chove demais
mas tá tudo bem sentir saudade
saudade dos bares
da minha casa
do meu pai e irmão
do cachorro fuzarqueiro
dos poucos amigos
saudade daquele beijo na boca
e das praças
e do bom chimarrão
aqui a poesia me rejeita
habitei as mesmas ruas
por tanto tempo
chega a ser banal me sentir transposta
quando me perco em Saturno 
ou em Urano
novas ruas
com nomes de planetas
estou aprendendo ser meu próprio lar.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Para ler escutando The Cranberries - Linger

todas as coisas que vivemos 
eu já escrevi
não faltou tempo
faltou vontade
agora eu tenho que revirar minha mente
em busca de detalhes seus
que não morrem em dias quentes
o clichê de gostar tanto pra tão pouco
a noite que você foi me buscar na faculdade
eu quis tanto que se repetisse
como se fosse natural
como se as minhas pernas fossem
o lugar favorito das suas mãos enquanto você dirige
mas sempre existiu outras pernas
as pessoas me alertaram
sua baixeza era evidente
poesia alguma o salvaria
mas essa aura me arrastava até a sua porta
toda vez que eu precisei de paixão
hoje você é um prurido na minha pele
me faz tão mal
sempre volta a me perturbar.


Arte: Tina Maria Elena





quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

A esperança é uma droga alucinógena.

por tanto tempo 
esperei um gesto
algo que adiasse 
a degradação
se a minha existência
lhe tocasse
se a minha presença
no outro lado da rua
lhe tirasse o sono à noite
se tudo fosse diferente
essa história não seria minha
acho que já escrevi 
um poema assim
mas nunca doeu assim
a dor se aperfeiçoa
não é mesmo?
e eu estou sempre
me repetindo
mas bastaria um gesto seu
para cessar a corrosão.

Título: Rubem Alves

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

O amor que não dá certo sempre está por perto.

   Aquele ar saudosista está pairando por aqui, agora consigo notar as rachaduras dos velhos sobrados da avenida mais movimentada, a sensação é confusa. Mesmo assim, não pertenço a esse lugar. Mesmo se você tivesse me abraçado dentro do meu bar preferido, mesmo se você gostasse de mim... Eu teria que ir embora. Mas ao menos iria sabendo que morei no seu peito. Hoje lembrei da noite que limpei as lentes dos seus óculos com o lenço dos meus, e você me olhou com afeto. Sem imaginar que eu poderia fazer muito mais se você deixasse. Na verdade nunca irei esquecer de todas as pequenezas que constituíram os nossos momentos, mesmo que logo ali na frente você esqueça o meu nome. Até esse minuto presente posso dizer que ninguém me dilacerou dessa maneira, mas o meu coração partido eu sempre colei com poesia. E será sempre desse jeito. Mesmo que o seu jeito me assombre e me rompa em  diminutas partículas de açúcar. Você se desfez tanto de mim, não consegui escrever durante esses três meses, eu precisei desse tempo para sentir isso, sentir meu corpo se desfragmentando naquele evento abarrotado de gente onde outras mãos seguravam as suas mãos no centro da cidade, para todos verem. É compreensível a dor. Meus pés na água fria de Copacabana não esfriou a sua imagem na minha cabeça. Seu nome no meu celular após tudo isso, sua precisão epidérmica de mim espezinha minha crença em grandes pertencimentos. Você me procurou só para comprovar que essa minha paixão é mais elevada que o morro do Corcovado. Eu vou ir embora e você nem sabe, se soubesse não se afligiria pois seria desimportante não me ver nunca mais. Preciso ir, sobretudo para me conhecer e me amar. Para nunca mais gostar de quem me esconde, de quem diz que não pode me ver mais vezes, de quem numa noite me queima no colchão e me esquece no outro dia. Vou ir embora porque nunca mais quero sentir isso.


Título: Cacaso, no livro "Lero-lero".


sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Eu me curvo para essa primavera onírica

   Não haveria essa angústia no peito, pois você me enviaria uma mensagem no final da tarde dizendo que o dia foi corrido mas que mesmo assim pensou em mim. Nos veríamos amanhã, você me buscaria com uma música alta no carro e eu me sentiria tão aliviada por poder segurar sua mão enquanto você dirige. Vamos tomar sorvete no calçadão? Eu sempre escolho doce de leite com ameixa, você chocolate. Você nunca liga por eu terminar o meu por último, até derreter e virar nas pernas. Você acha graça. Eu acho graça de viver assim sabendo que você é por mim. Você me passa o controle remoto, me deixa escolher o filme todas as vezes e depois ri, diz que sempre escolho um filme louco. Toda vez que você sai da cama, me dá um beijo no braço. Eu floresço por dentro. Você dorme, eu contorno as sardas das suas costas. Não consigo dormir, não quero estragar esse sonho. Nesse sonho você sabe pedir desculpa, e é sempre delicado. Nunca piegas. Nesse sonho você fala que eu sou um achado. Você é o melhor que já me tocou. Nossa vulgaridade é sempre poética, você me come como ninguém. Na minha cabeça toca Buckley e Fraser no escuro do seu quarto quando te beijo antes de ir embora. As pessoas que passam dentro dos seus carros durante a madrugada e nos avistam na sua sacada sabem, que somos envoltos por essa adoração sagrada, mesmo que obscena. Mordo seus lábios e essa paixão dói em mim, de tão viva. 

Não é real. 





domingo, 21 de outubro de 2018

Três meses foi ontem

O que eu faço 
com a vontade 
de procurá-lo 
depois de você passar por mim 
na avenida e 
colocar a cabeça para fora do carro 
como se nunca 
tivesse me visto antes?
Pensei em você toda a semana
como se fosse possível 
chamá-lo em pensamento
Você me desespera 
sempre quando penso 
no quão difícil é esquecer
Morro de medo de ir embora 
e enxergar um carro igual ao seu 
e trazê-lo de volta 
em outra avenida
em outra cidade
em outro estado
Eu lembro da saliva quente
das mãos quentes
da forma como um suspiro 
faz sua boca se transformar 
na letra O 
do meu jeito preferido.

Arte: Tina Maria Elena