segunda-feira, 2 de abril de 2018

Você é o meu Dionísio até essa loucura acabar

não posso lhe ver alheio por aí
pois você gruda na minha mente 
de um jeito muito rude
daquele jeito que não sai com água e sabão 
eu digo pra mim mesma que nem gosto mais de você
mas é só vê-lo numa fila de uma festa
ou atravessando a rua com um copo de cerveja na mão
que meu coração dispara querendo atravessar o quarteirão 
você foi mais um dos meus amores fadados
que depredou a minha comoção 
eu senti tanto nojo, ódio e mágoa de você
que sentir saudade hoje 
é necessário
você beijou minha bochecha no último final de semana
no mesmo bar em que tudo aconteceu há três anos
e eu consegui sentir ternura depois de muito tempo
mesmo que você nem lembre do que tenha feito
[nessa madrugada em questão
ou nas vezes que me feriu nos dias que se passaram]
a repulsa sempre escondeu um pouco da atração
mesmo que eu traia minha sanidade 
te desejando com força
só mais uma vez.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Para a segunda letra do alfabeto

foi nesse dia
no último setembro
eu lembro como se fosse a noite passada
o tempo corre para nos afastar
os vestígios dissipam-se
a memória vai apagar o gosto da boca
e a temperatura das suas mãos em mim
e quando eu passar na sua rua
vou pensar que conheço seu apartamento por dentro
e você nem me conhece
o sexo desenfreado
o calor extasiante
a minha vontade
de dormir com você todos os dias
nas horas em que lhe via dormindo
me abraçando com força
a nossa vontade de jogar todas as sensações 
na sua cama
esquecendo que
voltaríamos para a estaca zero no outro dia
pagando o preço por nos querermos desse jeito
porque o meu jeito perturbaria a sua liberdade
há mais ou menos dois meses você disse 
sentir medo que certas coisas virem rotina
eu tenho medo que certas coisas não virem nada

ah, como seria bom se a vida virasse
e você percebesse.
se você ousasse.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Me beija de novo, quero lembrar amanhã

Eu lhe beijei depois de quase dois anos
E não tocou Creep na minha cabeça
Eu lhe beijei e não consigo lembrar do beijo
Só lembro da frase reles 
que você proferiu nos meus ouvidos
Em meio àquela madrugada escassa
Você só me causa curiosidade agora
Como vive o homem adornado de álcool e 
fama arruinada?
Como posso viver bem 
se lhe coloco sempre na minha vida 
quando a poesia ameaça a me deixar?


















Arte: Agnes Cecile

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Meu estimado idiota

Com essas mãos eu passei manteiga no pão
e enterrei o meu cachorro mais cedo
Com essas mãos eu te escrevo um poema
e afago o gato
Você nunca reparou em mim
Não conseguiu ver além da cor 
do esmalte
E a sua mãe só conheceu 
as cores dos meus batons nas suas camisas
Eu nem sei qual é o seu livro preferido
No bidê ao lado da sua cama 
descansa um livro com um título intrigante:
"O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota"
Você deve não ter lido.

22/06/2017

domingo, 28 de janeiro de 2018

Domingo

Na sexta-feira à noite você me procurou
Como se fosse sadio voltar atrás
Esquecendo que o rancor reveste o meu corpo
Eu não fui 
e você colocou outra no seu lado menos adorado da cama
Me enviou uma mensagem às 4h da cama
Flertando, porém querendo dizer:
"Eu não acordei agora, meu bem
Comi uma garota 
que está no banheiro enquanto te envio essa mensagem"
Você me faz duvidar dos mistérios da vida
Entediando as chances que crio 
para manter-me afastada
Parece que tudo é cansativo quando você
Não está me decepcionando
Hoje num domingo quente e nublado
Imagens e sons
Dos seus suspiros e espasmos
Ocasionados por outra
Passeiam em minha cabeça
Você não precisa de mim para nada
Outra pode lhe tocar melhor
Lhe beijar melhor
Lhe sentir melhor
Daqui a pouco irá passar na tv 
o último filme que assistimos juntos
Naquela noite em que ríamos
E recomeçávamos pela quinta vez
Hoje tenho certeza
Domingo é o pior dia da semana.





sábado, 6 de janeiro de 2018

Eu rio enquanto tudo dói

                                                                                                                  E ele ri,
                                                                                                é um riso de criança, um riso de idiota,
                                                                                                              riso por nada,
                                                                                                  é o único riso que compreende,
                                                                                                  e o quarto floresce de loucura.
                                                                                                  Acabou: a essência e a forma.
                                                                                                     Eu observo enquanto
                                                                                             ele apaga as velas com seus dedos
                                                                                       comprimindo o canto externo de cada olho
                                                                                                      e o quarto está escuro
                                                                                                  como tudo sempre esteve. 

                                                                                                       Charles Bukowski



Um gostar tão ínfimo 
que só te faz lembrar 
das sensações epidérmicas

Um gostar tão parco
que não permite
uma mensagem de bom dia

Um gostar tão diminuto
que te faz me querer 
só quando ninguém vê

Um gostar bem pequeno
que depois de saciar a vontade
passa

Um gostar miudinho 
que faz a gente se amar no quarto
e nos desconhecermos na rua

O tipo de gostar
que eu nunca quis
mas que você estreitou para nós

Um gostar que não te deixa
perguntar sobre a faculdade
nem sobre os meus livros

Um gostar que te impede de sumir
da minha vida para sempre
O gostar que me rebaixa



29/12/2017

sábado, 25 de novembro de 2017

Fui te procurar na rua e meti a cabeça no poste

Se você estiver lendo isso
Quero que saiba que lembrar de você
É tão bom quanto salpicar coco ralado numa cobertura de chocolate
do bolo que fiz há pouco
Lembrar de você me remete aos tempos de ingenuidade
Tempo que eu era capaz de entregar uma carta dentro de um bar
Carta que guardei por meses dobrada várias vezes ao meio 
A dor, ela não se resume ao vê-lo beijando várias pessoas 
enquanto tenta ser grande
Nem em olhar as suas fotografias no instagram 
e imaginar que nossos filhos teriam olhos lindos se puxassem a você
Ao menos, se eu quisesse ter filhos
Esse sentimento difundido erroneamente 
que faz eu lembrar você quando alguém me magoa por querer 
Pois você só me magoou porque permiti
E voltar atrás é irremediável 
Pois não sou mais a garota entrando pela primeira vez naquele bar
E você não é Dionísio e seu nome é impublicável 
Você era o homem mais bonito da cidade para mim
Mais bonito do que o pôr do sol que seus olhos capturam 
junto da câmera do seu celular a cada fim de tarde
Mais bonito do que sua luta por justiça em voz daquele estrangeiro
Você era bonito para quem o visse através dos meus olhos
Para quem o lesse na minha poesia
Hoje você é só apenas um rosto saturado 
em meio aos transeuntes 
Conhece músicas boas
Leu bons livros
Está engajado na política 
Torce por um time de futebol
Você é só um babaca bem informado
Com lindos olhos verdes - sempre bom lembrar disso
Gosto de lembrar de você pois ajudou-me 
a aprimorar minha capacidade de construir bons versos
Veja só, construí um castelo para um príncipe pequeno.


Título: A Grandiosa, Adélia Prado.