segunda-feira, 23 de outubro de 2017

A carta que eu jamais enviaria

Eu gosto da sua despretensão calculada ao me enviar uma mensagem, do jeito que as frases escolhidas parecem um vírus cibernético. Quando você me esquece por semanas e ressurge justo na semana que pensei demais em você, como se adivinhasse minha precisão do seu toque. Eu gosto de te ver sentado na cama enquanto tenta defender seu caráter que todos veem corrompido, você se explica, se ensina pra mim, diz que se importa com o que eu penso. Mas só em relação a sua imagem. Você fala, debate e filosofa. Mostra que sua ambição hoje se sobressai acima de qualquer mero desejo. Porém, me deseja até eu queimar nos seus lençóis. Eu ardo. A vida nesses momentos fragmentados ao seu lado é árdua. Eu gosto dos seus dedos entrelaçados nos meus enquanto nos abraçamos na horizontal. Gosto quando beija as minhas costas de um jeito terno, como se fosse possível eu eternizar tudo isso. O que você pensa quando eu vou embora? Eu penso no quão louco é eu ser amante de um cara solteiro. Meu cheiro alguma vez já ficou na sua cama? Eu queria ficar lá até o dia raiar. Eu gosto do tom da sua voz quando ri, gosto da minha risada quando rio contigo. É como se eu te conhecesse de verdade, mais do que consigo ver e mais do que você se permite dizer. Eu gosto quando se preocupa se vou bater a cabeça na madeira da cama e numa doçura sem igual, ajeita meu travesseiro. Queria congelar isso. Mas nosso fogo queima tudo. Você é amável demais para quem age com tamanha aspereza. Eu gosto da paz que sua respiração me passa ao te sentir envolto em mim enquanto dorme. E eu não consigo dormir, preciso aproveitar isso. Se eu te contasse tudo o que penso seria mais um alimento para o seu medo, para o seu ego. Dá tanta vontade de te atropelar com minhas ideias e gostos e visões de mundo, dá tanta vontade de te mostrar que minha passionalidade vai muito além do que você mensura. Você não sabe de nada, meu bem. Bem que podia saber e não sumir e não temer. Bem que podia gostar de mim como diz e me mostrar. Deixa eu saber que você gostou mais do que eu de tudo o que fizemos semana passada. Me envia uma mensagem de bom dia, me queira no final de todos os dias. Como se não houvesse outras mulheres mais bonitas e mais interessantes. Me queira bem, pra eu nunca mais querer ninguém. Outras mãos no meu corpo não conseguiram abrasar meu coração. Seja meu amigo, dividindo receios e orgasmos. Você esmigalha os cantos do meu cérebro quando diz certas coisas e afaga sem querer a minha alma. Me acalma. Queria dizer de um modo sútil que ser sua válvula de escape a cada duas semanas, uma vez por mês, me faz desacreditar nos mistérios da vida e que só corremos para o que nos deteriora porque no final da noite gostamos de culpar o destino. Você tem medo que de isso vire outra coisa. Eu tenho medo de que seja apenas isso. Mas quem sabe, quem sabe um dia você me olhe e enxergue mais do que a menina que ri e bebe e rola com você na cama. Seus projetos de vida não deveriam afastá-lo de alguém que lhe quer bem, admiro seu autocontrole de manter-se afastado, de criar desculpas porque no fundo não consegue gostar de mim como eu gosto de você. Te enviar sms de madrugada falando em paixão é uma das coisas que você não sabe lidar e você mastiga e cospe o que não sabe lidar. E me julga louca-intensa-passional, mal sabe que desde que descobri gostar de você no último dezembro eu tenho me compactado para caber dentro de uma caixinha que pareça ser o mais leve possível só para você poder me carregar no bolso. Uma caixinha de fósforos. Mas você nem fuma. 

Setembro 2017

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Numa barbárie eles se esbarraram no bar

                                                                                       Conto baseado em um antigo poema autoral


  Verdes, os olhos de pupilas dilatadas a encarando do balcão no canto do bar. E os olhos dela, tristes. Mas ele naquela mísera luz não teve olhos para ver. O deslumbramento e o álcool anuviam tudo, não é mesmo? Torcia ela para que ele fosse mais do que um adorno do ambiente. Almejava ele que ela fosse o troféu da noite. Entre olhares minuciosos e gestos impalpáveis, saíram os dois pisando em cacos de vidros na calçada, como quem pisa em estrelas. No caminho até o ponto de táxi, ela sentia os olhares dos bêbados e das putas da cidade sobre os dois juntos, inacreditando na exatidão daquela imagem. Ela possuinte de cabelos negros, tão pálida e desarticulada, com um dos homens mais bonitos da cidade. O mais bonito para ela. E considerava isso há anos.
   Quebrando o silêncio após escutar a torneira jorrando água, ele disse que gosta tanto de ver a chaleira chiar. Como se com ele conversasse, contando-lhe urgências... Ele desencaminha o assunto para objetos externos, ganhando o tempo dela, que prepara o seu café, tentando lhe devolver o foco. Precisava destilar o álcool que bebera em algo forte, porém sereno. Ele a olha como quem quer tudo, mas ela só quer umas poucas palavras. Já passa das três da madrugada e ele agora troca o hálito do ar com o seu cigarro caro. Pergunta se ela tem por hábito recolher estranhos em bares lotados e preparar-lhes um café no cinza das horas. Ela disse que já o conhecia, de alguma avenida, daquela loja de tintas, quem sabe, talvez de outra louca vida. 
   Ele proferiu que louca é ela, e riram. Riram como quem pisa mesmo em cacos de vidros. Falou que o café estava amargo e pediu papel e caneta, colocou um bilhete em suas mãos e saiu sem dizer nada. Ela num espasmo leu "o demônio que habita em ti, já morou em mim'', uma cena quase que baudelairiana. A partir daquele momento, ela poderia persegui-lo em todos os bares mais ínfimos, para vê-lo, corrompendo outras moças estonteadas, mas apreciadora de um bom drama. Escreveu o nome dele na sola do seu sapato favorito e voltou para o bar. Essa noite ela vai dançar até ele se apagar dela.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Se você gostasse de mim, eu saberia

Eu o vejo dormindo ao meu lado 
e não consigo tirar as mãos de você
O cabelo macio
O shampoo cheiroso
O montão de pintinhas nas suas costas
Nossos dedos entrelaçados enquanto assistimos tv
A sua risada
Tudo
Tudo que vem de você 
me pede um pouco mais de atenção 
Até as batidas do seu coração acelerado após o sexo 
eu pude sentir com mais exatidão ontem
Como se tudo virasse poesia na minha cabeça
Nossas bobagens
Você me apertando
Eu lhe fazendo cócegas 
A minha birra temporária
Você dizendo gostar de mim
e eu querendo saber como
Você diz que gosta do seu jeito
Eu não entendo
Mas volto sempre para a sua cama
E me despeço de mim.




sábado, 19 de agosto de 2017

Meu bem, meu B.

Como se fosse possível
Como se fosse verdade
Nossas pernas enroscadas
Num ameno inverno de agosto
Enquanto viramos brasa 
Você me querendo até onde pode alcançar
Eu lhe querendo até me cansar 
Seu cheiro acasalando com o meu
As trilhas das minhas unhas nas suas costas
ornamentando os sinais da sua pele
Delicadamente sinalizando 
que eu caí de novo
Tropecei no seu discurso 
de homem ambicioso
Dei de cara com a sua cara
Sua respiração embalando a minha
Enquanto eu me tornava sua
No único momento que lhe sinto meu
Suas mãos buscando lugares secretos
Minha boca ansiando pelo gosto predileto
O sal da sua pele
Sua essência de homem 
confundindo-se com o aroma do seu perfume
Eu sou louca por você
Mas você não releva os meus dramas
E revela ser tão frio 
quando não está sob meus dedos
Anunciando que sua precisão de mim 
é somente epidérmica
Sendo que eu abri minhas pernas 
e minha vida para você, que não me lê
Que não se deixa ficar e não me deixa ir
Você que me toca e me assopra 
como quem beija uma flauta doce
Me enleando
Me tomando
Me desejando com força
Como se você um dia me olhasse
E enxergasse além 
da menina que ri e bebe e rola com você na cama.


quinta-feira, 20 de julho de 2017

Num sopro de letargia, eu sentia enquanto você abstraía

Enquanto lavo a louça
me pergunto se você pensa
Eu penso muito

Sua mão na minha perna
no caminho da sua casa
Você cantando alto no carro
E sorrindo como quem sabia 
que podia dilacerar minha pretensão

Os meses correram 
e eu te vi parado na faixa de pedestre 
com outra mulher no carro
Talvez com a mão acariciando as pernas dela

E é tudo tão fugaz 
Como se nós não tivéssemos acontecido
E você não tivesse repetido dezenas de vezes que
Gosta do meu gosto
Gosta do meu cheiro
Gosta do meu jeito

Pois sempre haverá 
outros gostos e cheiros e jeitos

No outubro passado 
você me enviava mensagens 
todas as noites dizendo me querer
Ansiando minha presença 
Como se somente eu fosse capaz de preenchê-lo

No último março você sentia a minha falta
Falta dos filmes franceses que lhe apresentei
Falta de tudo

Mas dissipamo-nos entre palavras
Você só me queria 
até onde pudesse vulgarizar 
todos os atos e sensações

Você soube dos outros homens que me feriram
Que me congelaram no tempo
Você me convidou para conhecer o fogo
Quando me aqueceu
Você assoprou o fósforo.






sábado, 3 de junho de 2017

Ontem à noite, a noite tava fria, tudo queimava, nada aquecia.

Você me causou danos irreparáveis
E te ver naquele breu noite passada
Desenraizou sensações profundas em mim
Enquanto Humberto Gessinger cantava
Que aquela noite, aquela noite estava fria
Tudo em mim doía
Eu gostei tanto de você, Dionísio
Para terminar assim
Me faltando luz, palavras e sossego
Você me olhou 
como quem olha e se arrepende 
um nanossegundo depois
Eu te acompanhei de fita
Vi você me ver fingindo que não via
Vi você destilar encantamentos em outros ouvidos
Vi uma mão pousar na sua perna
Outra mão acariciando seu ombro
Vi você tentando ser grande
Mesmo sendo tão parco e diminuto
Vi as luzes daquele bar refletindo  
sua beleza ascendente
Me vi caindo
Por que você não vê?


Título: Piano bar - Engenheiros do Hawaii

segunda-feira, 29 de maio de 2017

E vai ser apenas um incômodo primaveril

Depois que eu comecei a estudar Letras
Me sinto menos poética
Atrevo-me a dizer que meu eu lírico
Saiu para passear e perdeu o rumo de casa

São tantas teorias 
querendo desmascarar a utopia

Os versos decassílabos
São chatíssimos quando paramos para contar
E os docentes tão insensíveis

Se lerem isso
Bem capaz de eu perder 1,5 
só pela minha ousadia
De achar que escrevo alguma coisa

Eu perdi a paz
Eu perdi você
Foi por causa dos meus lábios desidratados?
Ou foi por que você não suportaria 
se preocupar com outro umbigo além do seu?

Você me perdeu
Por que eu sou fantasiosa demais?
Ou por que quis me perder?

Noite passada eu chorei
Encontrei um livro rasgado
Depois chorei porque meu coração 
está do mesmo estado

Eu finjo todos os dias desde aquele dia
Digo que não foi nada além de uma expectativa boba

Mas você tripudiou
lançou seu silêncio com tanto desdém

Eu quero esquecer
Parar de escrever sobre isso

Eu quero poder caminhar na rua da sua casa
Sem lembrar que lá é a sua morada
Eu quero fazer aniversário não sabendo 
que você também faz no mesmo dia

Eu quero fechar os olhos e apagar tudo
Eu quero não desviar assuntos e poemas
em direção a você.