terça-feira, 29 de julho de 2014

Escrevo porque senão eu morro

   Escrevo porque não sei desenhar, nem cantar. Embora eu goste de cantar meu blues todos os dias. Escrevo mesmo falando muito. Também escrevo muito. Escrevo para homens que pouco leem. Escrevo porque esses homens só não me alcançam porque não querem. Escrevo porque o ingresso do show que eu quero ir tá caro demais, acho que não vou mais. Escrevo porque não sou das matemáticas e mesmo assim ainda escrevo mal.

   Escrevo porque só gosto de quem não dá nada por mim. Escrevo porque não tenho peso para doar sangue. Escrevo porque não tenho aparência de moça mais velha e os moços que quero me veem como menina moça. Escrevo porque desço a rua já pensando que não tenho nada para fazer em casa. Mas adoro ficar em casa. Escrevo porque não tenho dinheiro para comprar todos os livros de todos os meus escritores preferidos.

  Escrevo por querer encarcerar na minha poesia quem não para de se esconder atrás das minhas mil paranoias. Escrevo para a tristeza se afastar. Escrevo porque não posso me aproximar. Escrevo porque não me dou bem com a minha mãe. Escrevo porque um dia quero ser uma boa mãe. Escrevo porque meu-primeiro-suposto-amor não me amou. Escrevo porque não sei qual é o meu filme favorito. Escrevo porque quando eu crescer quero escrever igual a Hilda Hilst. Escrevo porque quando eu crescer quero sentir como a Adélia Prado.

  Escrevo porque sou obcecada pela demência alheia. Escrevo porque eu mataria se pudesse, e vejo que nada me impede. Escrevo porque sou covarde. Escrevo porque quando eu falo, nem eu me escuto. Escrevo porque não posso fazer sua risada tocar no rádio. Escrevo porque você não quer que sua risada toque no rádio. Nem em mim. Escrevo porque sou a ovelha negra da família. Escrevo porque gosto de ser assim. Escrevo porque não sou o orgulho de ninguém. Escrevo porque não preencho ninguém. Escrevo porque ninguém têm nada com isso.

   Escrevo porque dói. E doer é bom. Escrevo porque sou masoquista. Escrevo porque como Caio Fernando Abreu, quero ser amada por alguma coisa que escrevi. Escrevo porque aquele homem disse que iria lembrar de mim pela minha poesia, mas nunca mais me procurou. Escrevo porque não consigo mais beber sem chorar. Escrevo porque chorar é patético quando é por alguém que nem sabe que eu detesto cenouras. De novo as cenouras.

   Escrevo porque não posso adotar todos os gatos abandonados pela cidade. Escrevo porque meus amigos vivem com pressa. Escrevo porque eu só tenho a pressa de escrever mais esse texto. Escrevo porque  deixar de ser criança foi a pior coisa que me aconteceu. Escrevo porque não ando de bicicleta há anos. Escrevo porque desaprendi a subir numa árvore. Escrevo porque reconheço quem não me conhece até de costas. Escrevo porque meu nariz é feio. Escrevo porque seu nariz afrontoso não sai da minha cabeça.

   Escrevo desde guria, quando fazia listas do que gostaria de ter. Com sete anos eu queria ter uma vaca. Saudade. Escrevo porque hoje só quero paz. Paz pra nós. Escrevo porque não posso fazer nada quanto a guerra no Oriente Médio. Escrevo porque ganho pouco e sou explorada. E não me atrevo a largar esse emprego. Escrevo porque não aceito o prazo de validade que as coisas/sentimentos/pessoas têm. Escrevo porque não posso escolher a minha família e meus amigos estão se extinguindo. Escrevo porque nunca viajei de avião e a tragédia vive no ar. 
   
   Escrevo porque mesmo tendo aprendido a não esperar muito faço isso por ilusão. Escrevo porque não sei fazer outra coisa. Escrevo para mulheres que nunca foram amadas. Escrevo porque não me acho bonita, mas a vida é. Nem sempre. Escrevo porque gosto da contradição. Escrevo por Inácio e Antonina, meus filhos bem amados que ainda vão nascer. Escrevo porque vou ter três filhos, e o nome do terceiro já escolhi mas não falo. Penso que vai ter o nome do pai. 
   
   Escrevo porque inventar é a minha única forma de viver. Escrevo porque só quero fazer isso. 


   Escrevo por amar Adélia Prado, que escreveu isso:

Eu não servia para ter nascido,
para comer com boca, andar com pés
e Ter dentro de mim oito metros de tripas
desejando a filigrana de tua íris
cuja cor não digo para não estragar tudo
e novamente ficar coberta de ridículo.

   Escrevo, porque não fui eu quem escreveu:

Quem és? Perguntei ao desejo. Respondeu: lava. Depois pó. Depois nada.

Foi Hilda. Deusa dos Grandes Nadas

14 comentários:

  1. Se eu disser que você está na minha lista de pessoas que eu salvaria de um ataque de baratas voadoras criadora de cenouras, você pararia de visitar meu blog? se sim, por favor, NÃÃÃÃO! Será que é mal (bem) de toda mulher que tem o nariz feio gostar da Hilda? Nunca vi seu nariz, mas o meu é pior do que o teu, deve ser,porque né. Eu escrevo porque eu sei como acabar com tudo,porém eu não quero.

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  2. Escrever é despir-se. Reler, redescobrir-se.
    GK

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  3. Céus, abençoada seja sua escrita! Abençoados são os motivos que te fazem escrever, meu bem. Espero que continue escrevendo até depois de crescer, até depois que o amor der certo

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  4. somos tão parecidas em tantas coisas, lendo esse texto me identifiquei com quase tudo, como você diz, sua solidão também é minha

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  5. Que bela declaração de amor à escrita, identifiquei-me muito também com seus motivos para escrever e pessoas como você só me motivam a encontrar nas palavras o que eu não encontro na realidade.

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  6. As coisas acontecem também, por acaso. Teu momento certo de "só fazer isso" vai chegar, porque as pessoas querem e merecem o melhor. Tua poesia é isso, mexe com nossas emoções, nos leva ao céu e de volta ao chão e isso é ser humano, tu me deixa mais humano quando te leio, suscetível aos brinquedos do destino.
    Saudações!
    Ney Borba
    PS: botei o endereço do teu blog no facebook, quis compartilhar.

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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  8. Aflição da alma, é quase como respirar, a palavra calada pro poeta sufoca.

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  9. Este comentário foi removido pelo autor.

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  10. "Escrevo porque não tenho peso para doar sangue" tem uma força incrível! A escrita se compara à vida e as palavras, à fluidez do sangue. A escrita salva vidas. (Provavelmente a do próprio autor, principalmente, como disse Clarice).
    Teu texto é um manifesto de todo aspirante a escritor. A identificação, pelo menos majoritária, é imediata. Tuas frases exalam o desespero e a vontade que temos com a caneta em mãos. O desejo de se fazer lido, correspondido. Lygia F. Telles diz que é um jogo árduo, sem parceiros ou testemunhas. A gente não sabe se vai alcançar alguém. Se vai falar ao vento. Mas, no fundo, isso não importa. O que importa é falar.
    Teu estilo é unico . Leve, angustiado, delicado. Teu universo literário é frágil. E lindo.
    Tuas palavras me acolhem.

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