quarta-feira, 25 de março de 2015

Não, tu não devias ter ido. Mas era amor perdido.

João me matou
mais vezes do que gostaria de morrer
A primeira vez
quando me sufocou com o travesseiro
no meio da noite
A segunda
quando brincou
de riscar a faca no meu corpo
A terceira
quando falou-me de outra mulher
A quarta vez
quando não me procurou naquele fim de maio
A quinta
quando não se importou
Depois teve uma vez, 
[que não dá pra esquecer]
foi quando me esqueceu
Foram tantas as vezes que ele me assassinou
Em algumas dessas vezes, ele arrependido
tentou me salvar para ser salvo
Fez massagem cardíaca
Pôs esparadrapos no meu corpo retalhado
Não mais falou de outra
Mas na última vez já era tarde
Ele me esqueceu,
eu conformada decorei meu velório
com flores recolhidas nas beiras das estradas
e fechei meu próprio caixão
Chorei por mim mesma.

Eu sou João. Eu me esqueci, eu me matei.

Título: Cecília Meireles

10 comentários:

  1. A sua poesia é tão imensa que mal cabe em alguns versos. A sua poesia engole o João, a morte, o esquecimento.

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  2. a gente se esquece em alguns corpos por aí, quando doamos nosso amor, nosso ser e estar
    você é boa demais pro João, Hellen
    Você merece viver em outra pessoa

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  3. Não sei quantas de ti vivem e amam coma mesma vontade, tu me faz pensar de verdade, que tua criatividade poética, te multiplica. Assim como as videiras multiplicam as uvas que multiplicam os vinhos e os copos de quem bebe os vinhos com tua poesia.
    Saudações.

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  4. João te mata e ele morre em suas mãos e tua poesia vive!!

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  5. Boa noite! Impressiona o "ritus" que manténs. E eu me encanto com seu desencanto. Foi bom estar aqui, até breve.

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  6. Penso eu, que a vez que deve ter ferido mais foi a quinta, quando João não se importou. Nada mais dolorido do que a indiferença.

    Como, brilhantemente, disse a Simone:
    "João te mata... mas tua poesia vive."

    Beijos!

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  7. Quando leio teus poemas fico com uma sensação que um caminhão me atropelou, Guria, contracionista da palavras. Incrivelmente perfeito!

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  8. Esquecer pode até tirar a memória, mas não arranca a marca da alma.

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