domingo, 19 de abril de 2015

João nunca voltará para casa

Leio suas antigas cartas
e parece que nunca nos perdemos
Sinto o peso de suas firmes mãos
em cada letra tremida 
desse papel agora carcomido pelas traças 
Faz alto inverno no meu corpo 
ao recordar do seu olhar quente
Você leitor, perceba bem a controvérsia
que ele me fez ser
Eu lhe escrevi durante toda a guerra
Nos lemos 
na fome
no frio
na dor
no medo
na esperança 
de vida, após mais um novo bombardeio

A última carta,
eu não sabia que era a última
Numa passagem, disse-me: A vida tem sempre uma desculpa.

Meu João, dize-me então 
em um outro tempo,
noutro espaço de vida... 
a desculpa para nos perder assim?

Hoje, ingenuamente o espero
com chuva e suco de maçã.

10 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. ...é abraiante. Lémbrame a unha canción que sempre me emocionou. Coma sempre, quedo prendido das túas palabras, que con tanta facilidade recrean imaxes e sentimentos na miña cabeza tan nítidos que poden facer saltar as bágoas.

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  3. Ai, como dói esse teu João. Em mim, em nós. Tua poesia é tua força, teu grito.

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  4. Você deveria escrever um livro. Eu preciso de um.

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  5. "Hoje, ingenuamente o espero com chuva e suco de maçã.", poxa... Dizer o que?

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  6. Na distração, acabei voltando aqui, e virei pó, depois desse poema que socou meu estômago. "A vida tem sempre uma desculpa" é genial!

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  7. Foi nos momentos mais necessários, e o final, foi para aprender a seguir.

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  8. João (o meu, o seu...) sempre em eterna fuga.

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  9. Tu é algo de muito para e na poesia. Eu gosto de sentir essa tua energia e fé na tua mente e dedos.

    Saudações.

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  10. João (des)carrega urgências inerentes aos corações (cor)rompidos. Obrigada, de novo, por essa.

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